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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Funcionalismo Público

Funcionalismo Público. É uma boa questão!
O Funcionalismo Público deve ser uma doença, daquelas que começam com uma dor no cabelo, e de repente se alastra. Vai contaminando seus órgãos e quando você vê, não tem mais chances de sobrevivência. A mesma coisa acontece dentro de uma repartição. A impressão que tenho é que um funcionário contagia o outro.
O clima em uma das agências da Caixa Econômica Federal, em Santos é típico de outras muitas instituições pertencentes ao governo. Posso falar com certa propriedade, pois trabalhei por quatro anos no funcionalismo público. Funcionalismo? Esse nome chega a ser uma piada!
São quase três da tarde e a chuva castiga Santos. E isso já causa certo desconforto nos cidadãos. Para piorar, nada melhor do que chegar a uma dessas agências e ser informado que seu problema não será resolvido. É o que ocorre comigo neste momento. Mas o primeiro funcionário que me atende me dá uma segunda chance.
Nem a pinta de galã de novela das oito que ele tem, evita que eu o olhe com muito ódio. Olhos azuis da cor do céu, cabelos pretos e pele branca. Não! Nem isso me deixa calma. Mesmo eu falando que no site, a informação é outra, ele não tem dó: me passa para outro setor. É, me passa, como se eu fosse uma bola no meio do campo.
Sento e observo. Conto doze pessoas na minha frente. Todas estão com caras de triste, inclusive eu.
Pronto, o primeiro cidadão acaba de perder a paciência. Ele levanta a voz e a atendente retruca. Não demora muito e ele sai, dando rasteira em cobra.
“878”, sussurra um das atendentes. Percebo que é a senha, mas não é a minha vez.
A fila do atendimento do galã aumenta. Bem feito!
E eu continuo observando. É engraçado a maneira como o ambiente é organizado.
Logo na entrada, há a porta giratória. Será que a intenção é realmente impedir assaltos? Eu tenho outra tese: é para dificultar mesmo. Você tem que tirar tudo de metal de dentro da sua bolsa. Quando pensa que esgotou todos os itens, vai rumo à porta e ela se trava. “Por favor, retire...” Tá tá tá, eu já entendi.
Teve uma vez que coloquei a bolsa dentro da caixa, aquelas para colocar os objetos de metal. O segurança veio, e disse que eu não podia fazer aquilo.
- Mas é mais prático.
- Mas não pode, respondeu ele sorrindo.
Isso é estratégia sim, para você desistir de entrar na agência e levar para os funcionários, tantos problemas. Afinal, eles têm que trabalhar, quando uma chata como você, resolve retirar o PIS.
Mas que porra! Pra que você quer retirar o PIS? Você nem sabia que tinha direito!
Neste exato momento, bem ao meu lado, uma funcionária pára para conversar com um carinha. Percebo que ele é ex-funcionário. Passa jogando beijinhos e distribuindo tchauzinhos. Parece a Miss Brasil. O pior é que agora ele quer contar e saber o que aconteceu nos últimos anos com os colegas. Afinal, foram tão agradáveis as tardes de ostracismo ao lado deles.
- E ai, João? Como está a Paty?
- Está bem. A levei no veterinário ontem.
- E a Maria, sua sogra? Já melhorou da hérnia de disco?
- Só passeia heim, grita outra funcionária para o ex-colega.
O carinha que cuida das senhas, continua a circular pela agência, segurando seu rolinho e distribuindo números que nunca chegam.
Um jovem, cliente do banco, estilo emo, cabelinho de lado, calça jeans, blusa preta e voz adocicada, passa falando no celular: “Mãe! Eu já tentei, mas ele disse que é o sistema!”.
Uma mulher, de calça jeans, botas e blusa preta, caminha e solta: “Essa Caixa é uma piada!”.
O galã consegue atender a todos da fila e agora, está de bobeira. Droga!
- Oi, desculpe, que número está? Pergunto para uma moça ao meu lado.
Outra coisa que observo: os funcionários parecem jogadores de pingue-pongue. Eles mandam a bolinha, quer dizer, o cidadão pra lá e pra cá. Eles apontam e dizem: “É lá, o outro vem e rebate: “Não, é lá”. E por ai vai.
O legal é que todo mundo que trabalha em uma repartição, pode se sentir jovem, independente da idade: “Olha, é ali com aquela mocinha”. “Não, não, você tem que ir ali, com aquele rapazinho”.
Tecnologia é uma coisa que também não chegou às repartições, e se chegou, é bem debilitada:
- Gostaria de retirar o PIS
- Você tem o Cartão Cidadão?
- Não
- Então não pode
- Mas eu li na internet, que com a Carteira de Trabalho eu consigo
- É, mas o sistema está fora
- E quando ele volta...?
O painel eletrônico também não funciona. Na verdade, olhando melhor, não existe. E é por isso que as funcionárias precisam falar o número da senha, mas elas não falam, elas sussurram! Deve ser de propósito também, pra você perder a sua vez mesmo...
Xi, por falar nisso, acho que acabo de perder a minha...