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sábado, 9 de janeiro de 2010

O comércio na Rua Doze

A Rua Doze realmente é uma rua de muitas histórias. Qualquer escritor que fique apenas 15 minutos sentado no banco da praça, sai com muito trabalho a fazer. Para aqueles que sofrem com bloqueios criativos, a Rua Doze é um santo remédio.

Uma coisa que ocorre com frequência no vilarejo são os carros com alto-falantes que vendem coisas de tudo o que você pode imaginar, deixando qualquer 25 de Março no chinelo. Como estive de férias no mês de dezembro, pude constatar as visitas e até decorei o horário delas. Decorei também, o som que rola nas gigantescas caixas de som e até o enredo do vendedor.

Por volta das 9 horas, os cantos dos pássaros são interrompidos para dar lugar ao carro dos ovos:

“O carro dos ovos chegouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu !!!!!!!!!!!!!!!”

Minha gente, só quem já ouviu sente o drama e o desconforto que esse grito causa. Se isso não bastasse, a mensagem continua:

“O carro dos ovos chegou e está parando na porta de sua casa. São ovos fresquinhos vindo direto da granja. Você leva trinta ovos e paga só, só, cinco reais!!!!

E mais uma vez o grito se repete:

“O carro dos ovos chegouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu !!!!!!!!!!!!!!!”

Os moradores da Rua Doze são pessoas de sorte, porque se eles perdem o carro das 9h, pode aproveitar o carro das 15h, que vem com enredo diferente e até musiquinha no final.

“Atenção freguesia, está passando o carro dos ovos na sua rua. Alô dona Maria, chame sua vizinha. São trinta ovos por apenas 5 reais. Ovos da granja diretamente para você. Aproveite!”

E de quebra, assim que o alto-falante termina a mensagem, vem o refrãozinho: “Nóis trupica mais não cai, pode botar fé que desse jeito vai”

E aí volta: “Atenção freguesia...”

Às sextas-feiras é a vez dos moradores comprarem materiais de limpeza. O proprietário da perua que vende cândida, detergente e amaciante pra roupa, é bem mais educado e vem em um horário, digamos mais apropriado para não atrapalhar o sono de ninguém.

Ele chega geralmente por volta das 13 horas e claro, com enredo, mas sem musiquinha:

“Olha a cândida!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Cândida, detergente, amaciante pra roupa e cloro. Ajax, creolina, pasta de brilho”. E Repete: “Olha a cândida!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

O vendedor de cândida faz parte da história da Rua. Ele vem há muito tempo, há muito tempo mesmo e é por isso que todas as donas de casa gostam dele, e os maridos aproveitam para trocar uma ideia sobre o Campeonato Brasileiro. O cara é firmeza mesmo.

Desde que a Rua é Rua, muitos carros do tipo já passaram por aqui. Um que fez muito sucesso foi o que trocava garrafas de vidro por pintinhos. Era o maior legal porque eu era criança (é, faz bastante tempo) e quando o carro anunciava sua chegada eu saia correndo pra trocar. Eu adorava os pintinhos, eram tão amarelinhos.

Outro que fez sucesso foi o dos churros. O vendedor fazia milagre, pois vendia dois churros por um real. A criançada fazia a festa. Nessa época eu já era meio grande, e demorei um pouco para experimentar a iguaria. Quando tive coragem, descobri que na verdade no lugar do doce de leite, uma extensa camada de óleo se encarregava de deixar a massa brilhante e um tanto escorregadia. Mesmo assim, eu me aventurei muitas vezes.

Há os vendedores sem carro também, como é o caso do tiozinho da tapioca. Há quem duvide, mas eu nunca comi. É que não gosto de tapioca, viu Janaína?

Tem ainda a tia da cocada, o tio do algodão doce, a mulher do tempero (mas faz tempo que ela não vem) e até o tiozinho do alho.

Já cheguei a pensar se é só a Rua Doze que tem o privilégio de receber visitas tão ilustres. Mas creio que não, eles estão em todos os lugares. Na Vila Belmiro, por exemplo, tem um cara que grita, mas grita mesmo: “Sorveeeeeeeeeeettttteeeeeeeeeeeeee”.

A primeira vez que o vi, não me aguentei e comecei a rir. Ele achou que eu ia comprar sorvete e parou bem na minha frente e deu o grito: “Sorveeeeeeeeeeettttteeeeeeeeeeeeee”.

E eu não conseguia parar de rir.

Esses dias na Rua Augusta, em São Paulo, um senhorzinho surgiu do nada na nossa frente dizendo: “Chegou o taradão da cerveja”.

Aliás, na falta do Quiosque do Waguinho, bem que um taradão da cerveja podia pintar na Rua Doze de vez em quando.