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terça-feira, 3 de agosto de 2010

De Uno na Daslu

Era uma manhã onde Inverno e Verão resolveram dar as mãos. Olhei pela janela e senti que seria um dia difícil. Respirei fundo, abri o guarda-roupa e escolhi meu melhor look, ou não? Não sei, nunca tinha ido à Daslu. Na boa, minha vontade era colocar uma calça jeans rasgada, uma camiseta preta, um All Star e fazer a jarbas para todas aquelas questões mundanas.
Afinal, se a senhora tranqueira pode sonegar impostos, por que não posso sonegar meu traje? Mas, como ia a trabalho, resolvi respeitar o corporativismo.
Creio que as questões corporativas foram esquecidas quando me colocaram dentro de um Uno Mille para ir à Daslu. Pasmem! Eu, claro não estava nem aí, e sentia que isso seria muito, muito divertido. Já outros colegas, não estavam gostando nada.
- Não acredito que vou entrar na Daslu de Uno!
- Relaxa, eu te arrumo uma caixa de papelão para você colocar na cabeça.
- E você brinca?
- Claro! Maior divertido! Agora comecei a gostar desse negócio.
O Uno seguia rumo à Serra e meu colega queria seguir rumo à sepultura. O carro está cheio. Não sei por que as pessoas insistem em querer derrubar a lei de Newton? Meu celular acaba de tocar e, juro, não consigo levar meu braço até a bolsa! O colega ao lado quer discutir as questões do processo de globalização e dos países emergentes dando uma visão marxista. E ele fica bravo porque eu não estou olhando pra ele.
- Amigo, eu estou te ouvindo, mas se eu virar meu rosto meu pequeno nariz bate no seu.
Finalmente chegamos ao império do luxo. Logo na entrada, temos um panorama do que é aquilo, em espécies de placas representando marcas: Chanel, Dior, Dolce & Gabbana, Prada Gucci, Ermenegildo Zegna, Salvatore Ferragamo... Como o evento era no Terraço Daslu, que fica no último andar da boutique, nosso belo Uno começou a subir uma rampa.
- Ae, seo Zé, segura a caranga, porque se esse carro descer vai bater na Ferrari que está aqui atrás. Vai ser osso, digo.
Ele fica tão assustado que resolve apertar o freio de mão e pede para não respirarmos por alguns instantes.
Chegando ao estacionamento, um homem trajado com um uniforme creme e de quepe, vem em nossa direção. Pensei que fosse algum príncipe do Egito, mas era apenas o manobrista.
- Senhor, a entrada de serviço fica à rua ao lado.
- Não, nós viemos para o evento.
- Ah, ta!
Ele dá uma risadinha meio sem jeito. Acho que pensou que era uma piada.
Eu sabia que isso ia ser divertido. Um império montado por mentiras e falcatruas. São 6. 500 metros de falsas ilusões, onde apenas alguns podem adentrar nas dependências. E eu, baixa-renda, estava ali. Achando tudo muito, muito imbecil.
Depois de cumprir com meus afazeres. Fui dar uma voltinha na Daslu Casa. Peguei uma taça e vi que, para comprá-la, deveria juntar dois meses do meu salário. Em uma taça! Quanta injustiça, eu bebo vinho Chapinha em copo de plástico!
- Amélia, você viu esse quadro? Custa 22 mil.
- Vi, é igualzinho a um que eu tenho em casa e que paguei 30 mango.
Hora de sair desse mundo e voltar à realidade. Lá vem o manobrista trazendo nosso Uno. Dá para ver a cara dele de ódio. Acostumado apenas a dirigir carros como Jaguar, BMW e Ferrari, deve estar achando um disparate esse bando de assalariado fazê-lo dirigir esse 1.0.
A raiva dele era tamanha que a energia negativa acabou passando para o carro, que começou a engasgar e morreu. Agora, arregaça as mangas e ajuda a empurrar a caranga. Perdeu playboy.
Amélia Kafka Silva, tem 27 anos e é uma personagem fictícia.

3 comentários:

Liliam Silva disse...

Putz eu se fosse o manobrista ficaria msm puto da vida ao dirigir a carcaça do Uno Mille!
Tbm é o que ele deve ter em casa, e só no trabalho deve ter o gostinho de dirigir altos maquinões... rsrsrsrsrs

Liliam Silva disse...

Pseudônimo Freire?

Érika Freire disse...

Sim. Sobrenome dos meus avós.