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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Desapaixonando pelo MSN

Trimmm...
O telefone toca. Ok, isso não seria problema se não fosse 8:45 da manhã de sábado. Era Guta, mais uma vez querendo saber minha opinião sobre Marcão, o cara por quem está apaixonada.

Calma, caro leitor, eu sou uma boa amiga, mas não sou Freud e nem Mãe Dinah, muito menos fiz curso para “trazer o marido de volta em dez dias”. Logo, nem sempre tenho uma opinião sobre os assuntos do coração. E o mais curioso, é que Guta costuma me ligar para que eu opine sobre coisas, digamos, exóticas como por exemplo:

“Érika, ontem o Marcão estava de blusa vermelha. Você acha que ele está mais disposto a se entregar a uma nova paixão?”, ou “No sábado ele me encaminhou um email de uma corrente para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto do hemisfério norte. Você acha que ele quis se aproximar?”, e ainda: “Esses dias o encontrei na padaria e ele me perguntou se o pão estava quente. Você acha que aos poucos eu terei uma chance?”

Desta vez, não foi muito diferente. Guta queria saber o que eu achava sobre o Marcão ter colocado a seguinte frase no MSN: “Só sei que nada sei”. E logo emendou: “Você acha que foi uma indireta pra mim?”

Respirei fundo e tentei burlar o mau-humor matutino. Busquei em minha memória um relatório das canalhices de Marcão e comecei aquele discurso pseudo-auto-ajuda que toda amiga deve fazer: “Ele não te merece, isso não é amor, se ele quisesse já teria ido atrás, logo você vai conhecer alguém que vai te arrebatar”.
Ela insistia, dizia que não consegue se imaginar ao lado de outro homem. Então, mudei o discurso: “se tiver que ser, será, o que é do homem o bicho não come, pratica o Segredo, nada é por acaso, quem espera sempre alcança, a esperança é a última que morre... Terminado o estoque de clichês, ela acrescentou chorando: “Ah, eu o amo! Ele é o cara mais lindo que já vi. Sem ele não consigo viver, ele é o sol que irradia minha vida”.

Cansada daquela cena bizarra, não havia mais citações motivacionais para acalmá-la, então, resolvi dizer a verdade:

- Guta, sinceramente acho o Marcão um saco. Não sei o que você viu nele, ele tem trinta anos e fica colocando frasesinhas no MSN. Não sei como alguém pode se apaixonar por alguém que copia máximas do tipo: Omnia vincit amor, Neoqeav... Daqui a pouco ele vai colocar SALADA. Aí é muita mancada!

E mais, pra mim ele é um viado enrustido. Homem que é homem não passa óleo no corpo para tirar fotos fazendo várias poses. Aposto que quando ele transa, fica preocupado com o topete. Sai dessa meu, se apaixonada por um homem de verdade. Aquele que bate na mesa, cospe no chão e coça o saco.

Me interrompendo bruscamente, Guta diz:

- Érika, Érika, ele acabou de colocar outra frase: “Filo porque quilo”. Será que agora ele me quer?

Tu, Tu, Tu...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Diário de Amélia - Cilada

Apesar de jovem, muitas vezes sinto-me uma senhora. Por isso, quando minhas amigas me chamam para sair, penso muito antes de aceitar. Talvez não tenha analisado tanto hoje. Por isso, nesta sexta-feira chuvosa, encontro-me em uma verdadeira cilada!
Do carro, eu avisto o bater das janelas, o trepidar das folhas e ouço o zumbido do vento. “Ai, acho que devia ter ficado em casa”, penso.
Minhas amigas estão eufóricas, parecem os corintianos na final da série B do Brasileirão, quando o time conquistava o campeonato e garantia a volta à série A, infelizmente. Mesmo sendo a mais jovem do grupo, sou a mais reclamona, pareço uma tia velha:
- Não dá para ir mais rápido? Estou com fome...
O primeiro lugar da noite é um barzinho muito famosinho por suas iguarias. São espetinhos e porções gordurosas que garantem a pança nossa de cada dia. Mas enfim, como ando muito preocupada com a forma física ultimamente, resolvi pagar alguém para correr na praia por mim.
Antes, até me importava se o pico estava ou não bombando, como dizem os adolescentes. Em caso negativo, era a primeira a cogitar a mudança. Mas agora, o que quero mesmo é sentar, comer e ser feliz ouvindo piadas e fazendo trocadilhos infames. E para completar, a noite perfeita deve ter uns coroas bem gatos. De moleque, já basta o mala do meu irmão.
Ao parar em frente o local, que parece mais uma missa em dia de domingo, as meninas decidem procurar algo mais, digamos... animado.
Eis a questão. Para onde vamos em uma sexta-feira chuvosa e fria, em Santos?
- Ah, Toninho do Bacalhau, é claro!, diz Bruna, que parece mais a garota propaganda do local.
Resolvo palpitar:
- Nossa, todo mundo fala do Heinz, ali no canal 4, mas eu nunca fui...
- Ah, verdade! Também sou louca para ir, reforça Priscilla.
Já Neni, nada diz. O que ela quer mesmo é pedir a primeira Cuba Libre da noite, nem que seja no inferno.
Assim que as quatro entram no Heins, o bar parou! Juro que não entendi... Será que eles se perguntaram: o que essas moças vieram fazer em um lugar um asilo? O mais novo devia ter uns 75. Eu gosto de coroa, mas não exagera vai...
- Vamos embora, pelo amor de nossa senhora de piraporinha do sul, digo.
Com preguiça de dirigir, resolvemos escolher algo por ali mesmo, naquelas imediações. Então, entramos no O Grill, que estava mais vazio do que palestra sobre Alimentos Transgênicos.
O garçom veio nos atender:
“Com a fome que eu estou, pediria um Boi no Rolete”, penso.
- Moço, eu quero pão de alho e um espeto de frango, digo.
- Não tem pão de alho.
- Hum, então eu quero um de linguiça apimentada.
- Também não tem.
- O que tem então?, pergunta Priscilla.
- Ah, tem porção de fritas.
-FRUTAS?????, pergunto assustada.
- FRITASSS, minhas amigas gritam.
Juro que entendi frutas! Fiquei imaginando ele chegando com a cerveja e uma bandeja cheia de maça e banana. Ah, vai que é um bar exótico.
- O espetinho de frango com provolone não tem, porque não tem o provolone, né?, pergunta Priscilla.
- Isso, responde o garçom para espanto da galera.
- Nossa! Não tem nada. É mais fácil pedir uma porção de pão com manteiga.
O garçom já havia entrado no clima e quando era chamado por nós, já avisava de longe:
-NÃO TEM!!!
Depois de umas cervejas quentes e uma comidinha sem graça, o que nos restava era cair em uma balada bem bacana. Mas quando chegamos próximo do carro, um pneu havia furado e o máximo que conseguimos foi terminar a noite com o tiozinho da borracharia cantando "Nóis trupica mais não cai, pode botar fé que desse jeito vai". Quem curte?
Amélia Kafka Silva é uma personagem fictícia. Publicado na revista Studio Box