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sábado, 13 de novembro de 2010

José e Pilar

Antes de assistir a José e Pilar, já havia feito um filme em minha cabeça. Cheguei a pensar que veria cenas melosas de amor romântico e frases de efeitos. Não sei por que isso aconteceu... Talvez porque preferi não ler nada a respeito do documentário antes de vê-lo.

Porém, me enganei. O que vi foi a trajetória de uma vida a dois, onde o romantismo pareceu ficar em segundo plano. É como se não precisasse de demonstração, é como se os acontecimentos cotidianos por si só, traduzissem uma vida que esperou anos e anos para ser vivida com plenitude. Digo uma vida, porque José e Pilar conseguiram a proeza de se transformar em um só. O que é raro, belo e incrível.

Mas confesso que todas essas percepções ficaram claras para mim perto do final do filme. Um pouco antes do meio da narrativa, por exemplo, o meu lado racional havia resolvido aparecer e tudo o que via era uma união baseada em contratos sociais. Como se Pilar fosse uma esposa-secretária de eficiência ímpar.

É aos poucos que a sensibilidade daquela relação vai aparecendo, dando ao espectador a certeza de que o amor pode ser um compromisso visceral com o próximo, sem a necessidade de demonstração de afeto, cobranças e romantismo o tempo todo.

Há beleza em cenas simples, como, por exemplo, em uma onde Saramago fala para o público e Pilar, claro, está ao seu lado. Mas assim que se finda o discurso do marido, os aplausos se iniciam e ela sai de cena, o deixando sozinho. Ele vira para tentar vê-la, mas ela não está. Então, ele a chama “Pilar?” Com certeza essa simples descrição não é capaz de mostrar o que se sente ao ver. Em vários momentos, senti que Saramago vivia por Pilar, e Pilar por ele. Antes de iniciar uma entrevista, ele chega a perguntar: “Pilar, o que eu falo?”.

O documentário é do diretor português, Miguel Gonçalves Mendes e foi co-produzido pela 02, empresa de Fernando Meirelles. Talvez por isso, bons minutos do filme são dedicados à visita que Saramago fez ao Brasil, em 2008.

Há ainda o momento em que Saramago assiste ao filme, “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo do escritor. E a cena final, se passa em Terras Tupiniquins (se não estou tão cega) Tudo isso dá ao documentário um ar meio brasileiro, o que é ótimo.

Me emocionei em vários momentos, pela delicadeza, honestidade e singularidade que o filme conseguiu passar.


“Amar é: ter amor, afeição, devoção, estimar
Pilar, Pilar, Pilar
José, José, José”

4 comentários:

Gabriella Mancini disse...

Quero ver! Uma amiga disse que há cenas tão íntimas e naturais que ela duvidou sobre o diretor estar presente. "Deve ter deixado a câmera lá e saído." Difícil mesmo captar a intimidade com a câmera entre vc e o personagem. Mas, pelo que li, o filme atingiu a meta. E foi além.

brunofn85 disse...

Opaaa
graças a seu blog, taí boas dicas de cinema e praticar uma boa leitura!!
mais uma vez, parabéns Erika!
continue assim!
bjaoo =]

Cecilia Nery disse...

Este é mais um filme que quero ver, acho que estamos em sintonia e seu comentário só aumentou a vontade. Belas palavras.
Ah, passa lá no meu blog, escrevi sobre "Se um viajante numa noite de inverno". Bjs.

malu disse...

Tive impressões parecidas sobre o filme. Sabe algo que me tocou bastante? Apesar da grande diferença de idade, eles tem uma relação de homem e mulher. Ela não olha para ele como um velho... o amor está além dessas coisas.
adorei seus comentários, bjs