Páginas

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DIÁRIO DE AMÉLIA - Questões Natalinas

O período natalino parece tirar a sanidade de alguns. Aliás, ainda não sei de onde surgiu essa ideia de que nesta época do ano as pessoas ficam mais afáveis? Existe alguma comprovação científica? Porque na prática o que se vê é o contrário.

Sair às comprar nesta época, por exemplo, é tarefa digna de um Highlander. Como não tem muita escapatória, o jeito é vestir a armadura e ir à guerra.

Teve uma vez, que, assim que entrei na loja, avistei uma senhora que pegava umas peças da bacia, enquanto um ramister caminhava por seu pescoço. Olhei aquela cena bizarra e pensei se tinha exagerado na cafeína, mas não, era um rato! Tudo bem que propagar o amor pelo reino animal eu também faço, mas imagina se aquele seu amigo que cria um chimpanzé resolve dar uma voltinha pelo supermercado? É um pouco demais, né?

Neste mesmo ano resolvi fazer a ceia em minha casa. O combinado era cada um levar um pratinho (ah, pobreza), só que acho que a galera deve ter entendido errado. O “pratinho” era com alguma comida dentro, não vazio para você encher e levar para a sua tia, entende?

Para completar, o tio Alaor chegou do nada. Aliás, toda família tem aquele tio chato que na noite de Natal resolve aparecer, fazendo o enturmado. Ele chega abrindo a geladeira, comendo umas uvas. Mas sabe como é, em casa de assalariado sempre tem espaço para mais um. Então, deixamos o tio Alaor ficar, mas acho que beber a Brahma ao invés da Bavária já é um pouco demais. O folgado ainda queria ficar com uma coxa do Chester.

Todo Natal que se preze tem que ter o tal do Amigo Oculto. O cara que eu “peguei” era um colega do meu primo. Só sabia o nome do indivíduo, Marcelo. Com base em dados tão grandiosos, pensei que um presente cabível seria um perfume. Parcelei em 15 vezes sem juros.

Na hora que ele abriu o pacote fez cara de assustado. Agradeceu imensamente e, para surpresa de todos e, principalmente para a minha, era eu quem ele havia “tirado”. Comecei a abrir a embalagem quando me deparei com um despertador aqueles de R$1,99. Achei a brincadeira original e comentei: “Poxa, legal essa ideia”.

Mas não era uma daquelas sacanagens que se costumam fazer antes de entregar o presente de verdade. Ele tinha comprado um despertador mesmo. Acredita? Pois é, nem eu. Pensei comigo: “como esse cara de pau pega como “amigo” a dona da casa onde ele vem encher a pança e tem o disparate de comprar um despertador?

É claro que minha cara de macaco logo denunciou o quanto eu havia adoooraaado aquela lembrancinha. No lugar dele, acho que teria ido embora imediatamente dando a desculpa que não perco a Missa do Galo em hipótese alguma. Mas o folgado veio falar comigo: “Nossa, seu primo havia me falado que o Amigo Secreto era de R$1,99”.

É engraçado isso, né? Já reparou que em todo Amigo Secreto tem um sem noção que entende errado? Acho que está na hora de criar um regulamento para essa palhaçada.

Olhei pra cara dele e por dentro eu pensava: “Tu jura? Sabe o que eu deveria fazer com esse despertador? Enfiar em algum lugar do seu corpo que deve ter mais serventia que o seu cérebro”. Mas, como o protocolo diz que o Natal é símbolo de harmonia, sorri e falei: “Imagina, fica na paz!”

Bom, depois de tudo isso, pense que realmente estava louca em oferecer a ceia em minha casa. A galera parecia que estava no show da DJ Ingrid e não queria ir embora. Como tudo o que eu desejava era a minha cama, comecei a discursar sobre a importância da luta de classes e como Karl Marx conseguiu propagar sua ideologia em prol dos proletariados. Disse ainda que me sentia imensamente envaidecida por ter sido representada por alguém tão engajado com a classe econômica.

Tio Alaor deu o pontapé inicial e foi o primeiro a bocejar, mas antes de sair, pegou a outra coxa do Chester. Maledeto!


Amélia Kafka Silva é uma personagem fictícia. Um pouco mal-humorada, que fala tudo sem rodeios. Meu sonho é ser igual a ela.

3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei!
bjs

Malu disse...

Esse anônimo que adorou sou eu, tá? Sempre enrolada com o o computador..

Cecilia Nery disse...

Que texto delicioso de ler. Adorei!
Todo mundo tem uma história para contar de Natal e suas respectivas famílias. Beijos e Feliz Natal. Um 2011 repleto de alegrias e realizações.