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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livros e escolhas

Texto de Malu Giaffone

Sempre me pergunto o que me faz escolher um livro entre tantos na livraria?

Às vezes procuramos algum título específico porque alguém indicou, devido a alguma resenha positiva, porque adoramos aquele autor, ou ainda o tema nos é especialmente interessante.

Mas, há as escolhas onde nenhumas dessas alternativas se fizeram presente. É quando o livro simplesmente nos interessa por um detalhe na capa, pelo título sugestivo, pelo nome ou nacionalidade do autor. É uma escolha inteiramente emocional. Sem nenhuma informação prévia e de repente um simples detalhe nos captura.

Lembro de dois livros que escolhi pelos títulos, muito antes de fazerem sucesso. “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafon, porque achei linda essa imagem, do vento ter uma sombra. O outro foi “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Suzak. Como não se interessar por essa pequena frase, com essa imagem de uma garota que goste tanto de livros a ponto de surrupiá-los? Em ambos os casos fui feliz nas escolhas.

Digo tudo isso porque foi assim que escolhi “A chave de casa”, de Tatiana Salem Levy. O título é inspirado, mas não tanto quanto os outros que mencionei. A capa é linda, com detalhes de um tapete que parece real, não uma imagem, dá vontade de tocar.
Entretanto, penso que o que realmente me capturou foi a ideia de reencontro com as origens, que pode ser visto de duas formas: origens familiares, ideia forte para todo descendente de estrangeiros, mas também entender a própria história através da história de nossos ancestrais, o que vai muito além dessa questão de imigração, de pertencer a uma cultura diferente. É o reconhecimento de que somos produto não só das nossas experiências, mas também da vida dos que nos precederam. Ainda assim, a nossa trajetória é única e individual... Paradoxal, não?

Feita a escolha, o livro já me encantou nas primeiras palavras. A narrativa não é linear, o que sempre me agrada. Gosto da espécie de labirinto que alguns autores conseguem construir, ou talvez seja melhor falar em um mosaico, nos dando as pecinhas que nos permitirão entender toda a história.

A história é contada em primeira pessoa. O tom muito íntimo, confidencial mesmo, que ela dá ao texto, é muito bonito. Todas as palavras estão ali, mesmo as muito duras, cruas, mas o resultado é uma narrativa sensível, bela, nada bruta.

Outra coisa que me agradou muito foi o fato da narradora ir se mostrando aos poucos. Os fatos que nos permitem entender a sua trajetória são revelados de uma forma vagarosa, como num streep tease caprichado. Sabe o que me lembrou? Sessões de terapia, em que o paciente, aos poucos, vai se sentindo à vontade e vai trazendo os fatos em seu próprio ritmo, sem se importar muito em satisfazer a curiosidade de quem escuta.

Mais não digo, porque a própria orelha do livro, em minha opinião, fala demais. É o tipo de livro em que muita informação estraga o prazer da leitura, porque perde o jogo de mostrar aos poucos, que é a grande força da narrativa.

Indico para todos que gostam de histórias sensíveis, contadas de uma forma muito pessoal, onde se pode ler a alma do narrador a cada linha.

4 comentários:

Érika Freire disse...

Oi, Malu
É muito gostoso quando um livro cai em nossas mãos, sem muita pretensão e ele acaba nos surpreendendo. Gostei bastante desses dois livros que você citou, principalmente “A sombra do vento”. Aliás, o segundo deste autor também é ótimo “O jogo o anjo”. Super recomendo.
Teve uma vez que cheguei a ficar interessada em ler “A chave de casa”, mas acabei nem indo atrás do livro. Agora com sua opinião positiva, vou colocá-lo na minha lista.
Bjs

Malu disse...

Obrigada pelo espaço, querida amiga. Li "o jogo do anjo", mas acho que estava tão impressionada pelo anterior que não curti tanto. Excesso de expectativa as vezes estraga, né?
Espero que você goste do livro tanto quanto eu gostei.
Um beijo

Cecilia Nery disse...

Adorei o seu post, Malu. Achei superinteressante essa sua relação com o livro, a história da sua leitura, não simplesmente a resenha do livro. Muito bom, fiquei até interessada nesse livro. Parabéns pela sua escolha. Beijos.

Malu disse...

Obrigada, Cecilia. Eu quis dividir a minha experiência, não "apenas" falar do livro (entre aspas porque falar de um livro nunca é pouco). Se decidir ler, espero que goste. Depois conta! Bjs