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sábado, 30 de julho de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

“A morte do gourmet”

Sempre penso que há livros que devem ser lidos apenas devido ao título. “A morte do gourmet” é um exemplo. Adorei esse título. É claro que ao desfilarmos pelas páginas, quando a obra nos chega às mãos, corre-se o risco de não corresponder à expectativa. 

Escritora francesa, Muriel Barbery
Quando um livro me interessa, procuro ler várias resenhas, opiniões, enfim. Mas confesso que raramente desisto de ler caso tenha me deparado com críticas negativas. “A morte do gourmet” me encantou logo de cara pelo título, assim como aconteceu com o segundo romance da escritora francesa, Muriel Barbery, “A elegância do ouriço”. Outro nome incrível. 

Muriel, coloca em sua literatura, vestígios de Filosofia. Ela é formada pela École Normale Supérieur e deu aulas de Filosofia em Saint-Lô, na Normandia.  Seu primeiro livro foi publicado em 2000, “A morte do gourmet”, mas lançado somente em 2009 aqui no Brasil, depois do sucesso do segundo livro, “A elegância do ouriço”, lançado por aqui em 2008, pela Companhia das Letras. 

O primeiro que li foi “A elegância do ouriço”, um romance filosófico e muito bem humorado. Acabei não falando sobre ele aqui no blog por conta daquele problema da preguiça. Mas a jornalista Cecilia Nery leu o livro recentemente e fez um texto maravilhoso. Clique e leia. 

Em a “A morte do gourmet”, um crítico de gastronomia, Pierre Arthens, descobre que lhe restam apenas 48 horas de vida. Neste tempo, mergulha no passado para relembrar os sabores dos melhores pratos que teve a oportunidade de degustar. Seu desejo é recordar um sabor específico. 

Entre camarões, sardinhas e sorvete, fazemos uma imersão na vida do personagem, desde a infância, até a consagração, como crítico de gastronomia respeitado. Muriel também dá voz a outros personagens que recordam passagens da vida de Pierre. Em alguns momentos, é possível notar a personalidade ambígua do crítico, oras sensível, irônico e até arrogante. Porém, pensando melhor, será que todos nós também não somos assim em momentos diferentes? 

Neste livro, Muriel também deixa escapar através de Pierre seu senso de humor, o que é sempre bacana em uma obra. A passagem da empregada é impagável:

“A segunda razão pela qual gosto do patrão é um pouco difícil de dizer... é porque ele peida na cama! A primeira vez que ouvi, não entendi o que tinha ouvido, por assim dizer... E depois a coisa aconteceu mais uma vez, eram sete da manhã, a coisa vinha do corredor do salãozinho onde o patrão às vezes dormia quando voltava tarde da noite, uma espécie de detonação, uma fífia, mas aí, realmente, alto pra chuchu, eu nunca tinha ouvido nada parecido!... Desde esse dia senti simpatia pelo patrão, sim, simpatia, porque meu marido também peida na cama ( mas não tão alto). Um homem que peida na cama, minha avó dizia, é um homem que ama a vida. E depois, sei lá: isso o tornou mais próximo...”

“A morte do gourmet” é uma leitura rápida e descompromissada. Mas gostei bem mais de “A elegância do ouriço”, pois tem uma profundidade mais saborosa e deixa o leitor mais próximo das personagens principais, Renée e Paloma. 

Em breve, poderemos assistir o resultado da adaptação do livro no cinema.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Rota Literária, o recital poético que tem o porto de Santos como tema

Bora lá, gente? Eu já vi e é sensacional!

Evento ocorre neste domingo, às 18h, no Sesc, e tem entrada gratuita

O Sesc Santos apresenta neste domingo (24) o recital poético Rota Literária, que tem a literatura portuária como tema. O espetáculo acontece às 18h, no Auditório, com participação especial do pianista Tarso Ramos. A entrada é gratuita.

O público conhecerá um panorama de cenas literárias escritas ao longo dos últimos 100 anos sobre o porto de Santos. O texto é baseado nos 10 anos de pesquisas do jornalista Alessandro Atanes, autor também das versões musicadas dos poemas. A direção é de Anderson de Oliveira e a realização do espetáculo é do Instituto Artefato Cultural. A empresa Armada Rossi é apoiadora cultural do evento.

Ao som do piano de Tarso e do violão de Alessandro Atanes, duas atrizes cantam, dançam e interpretam poemas que falam do porto e da cidade de Santos. O recital é uma versão para o palco do passeio poético realizado em 2010 pelo canal do estuário de Santos a bordo de uma escuna, e fala do trajeto de poetas que por lá passaram, como Pablo Neruda, Elizabeth Bishop e Blaise Cendrars. Estes grandes nomes da literatura têm algo em comum: todos eles deixaram sobre o maior porto da América Latina impressões que serão revividas neste espetáculo.

No palco navegante, as atrizes Marisa Matos e Cláudia Nascimento fazem as vezes de guias em um passeio que intercala paisagens e letras pelo porto. Não poderiam também faltar menções às obras de escritores de Santos como Roldão Mendes Rosa, Rui Ribeiro Couto e Narciso de Andrade ou dos contemporâneos Flávio Viegas Amoreira, Ademir Demarchi e Alberto Martins. A novidade deste ano é a inclusão também da obra de Madô Martins, jornalista e escritora.

A Rota Literária contribui para a integração porto-cidade através da produção artística, tornando o porto de Santos mais familiar tanto para moradores da cidade como para turistas. Outro objetivo da produção é colaborar para promover Santos como destino de turismo literário. O Instituto Artefato Cultural vem trabalhando para transformar o passeio em um roteiro turístico-cultural da cidade, e está aberto à participação de empresas interessadas em obter benefícios fiscais investindo nesse espetáculo que valoriza a história e a literatura de Santos.

Minha amiguinha Márcia destacou o Rota Literária em sua coluna no Jornal da Orla:

terça-feira, 19 de julho de 2011

“O Passado” é um mergulho nos amores doentes e fantasmagóricos

Alan Pauls, escritor argentino, chegou a pensar em dar o título de “A Mulher Zumbi” para o seu romance “O Passado”. Eu jamais teria lido se ele tivesse insistido nisso.

O livro, lançado no Brasil em 2007, recorre aos amores desesperançados para contar a história de Rímini e Sofía, que decidem se separar após 12 anos de casamento. O amor doentio de Sofía é o fio condutor que mantém o casal ainda ligado depois do rompimento. Rímini tenta continuar dando um sentido para sua existência, mas parece sempre esbarrar nas sombras de um passado feliz e ao mesmo tempo nebuloso ao lado da ex-mulher.

A narrativa de Alan Pauls é de um fôlego surpreendente, mas que em alguns momentos peca pelo excesso. O autor coloca o leitor sempre à frente dos acontecimentos e, aos poucos, vai contando os caminhos até chegar aos fatos. É isso que faz com que você leia e, muitas vezes, sinta raiva por Pauls esconder tanto o jogo. Ótima estratégia!

O protagonista, Rímini, passa por diferentes fases após o término da relação, mudando desde o estilo de vida até a profissão. Chega a se fissurar pela cocaína, masturbação, tradução (que era a sua principal atividade no início da história). Depois, passa a ser intérprete e até professor de tênis. Entre essas trajetórias se envolve com outras mulheres e chega a ter filho com uma delas. E a loucura de Sofía é tamanha que ela sequestra o menino.

Em determinado momento cheguei a pensar que a segunda mulher com que Rímini se envolve, Vera, lhe daria mais problemas do que Sofía. Ela tinha um ciúme perto da banalidade e, se continuasse na narração, certamente seria ela a responsável por transformar a vida do rapaz num inferno. Depois, notei que Sofía libera suas insanidades em doses homeopáticas e diferentes. 

A riqueza de detalhes presente na obra faz com que as cenas sejam criadas na imaginação do leitor como um filme. Talvez essa preocupação de Pauls com o detalhamento ocorra por ele também ser roteirista, o que certamente interfere em sua prosa. O escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, chegou a saudar Alan Pauls “como um dos maiores escritores latino-americanos vivos”.

Em 2003, a obra ganhou o Prêmio Herralde e em 2007 foi adaptada para o cinema por Hector Babenco. Quem faz Rímini é o ator mexicano Gael García Bernal, fato que não me deixou criar meu próprio Rímini durante a leitura, mesmo não tendo assistido ao filme. Acho que isso aconteceu porque o livro veio com esse encarte:


Aliás, a edição belíssima é da Cosac Naify:



Trecho de “O Passado”, pág. 407

“... Rímini pôs-se ao seu lado, mas a manteve enlaçada com um braço, muito consciente, em seu papel de amante profissional, do alívio que lhe proporcionaria ao liberá-la de seu peso, mas também do desamparo que as mulheres sentem depois do sexo, quando a satisfação devolve os corpos à solidão”.

Alan Pauls participou da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na edição de 2007. Chegou a afirmar durante o evento que o amor é uma doença. Em texto publicado no portal G1, ele diz: “Sou uma vítima e não um especialista do amor e não poderia escrever sobre o amor que não fosse patológico”.

A voz do livro é extremamente masculina. Comento isso porque há autores que conseguem transmitir sensações com um ponto de vista feminino, como o Fabrício Carpinejar, por exemplo. No caso de “O Passado”, mesmo se não tivesse o nome do autor impresso na capa, nossa imaginação certamente levaria a crer: “só pode ter sido escrito por um homem”. 

Veja abaixo, um vídeo com o escritor argentino, Alan Pauls.


PS - Tinha decidido não escrever mais aqui no blog sobre livros. Acho que é um pouco preguiça, mesmo. E também, aquela impressão ainda prevalece: ler e guardar para si as sensações é mais divertido e dá menos trabalho. Mas esse, achei que valia muito a pena comentar. 

PS1 – Ainda na linha dos autores latinos, li “O Sonho do Celta”, do Mario Vargas Llosa. Um livraço que cheguei a pensar que não gostaria. Achei bem diferente das coisas que já li dele. Vargas Llosa é realmente incrível!

Publicado no Artefato Cultural

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Tarrafa Literária

A Tarrafa Literária será de 24 a 28 de agosto e a programação está interessante! Fiquei bastante animada com as oficinas que serão ministradas.

Confira a programação clicando aqui.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A gente se acostuma



A gente se acostuma assim, com um abraço meio folgado, com um bom dia mal dado e com o gosto insosso do entardecer.
Gosta de viver com o normal ligado, economizando dinheiro sem saber por quê. Caminha com o olho grudado no nada, planejando o passado e sonhando pesadelos. Não gosta da finitude das coisas, porque cá entre nós, recomeçar dá preguiça. Empurra o mundo pra trás para sentir o sabor do mofo.
A gente se acostuma com o nada e quando o tudo vem mal sabemos o que fazer com ele. A gente faz uma leitura das cenas e busca fundamentos ao invés de sentir. A gente se mostra para os outros e se esconde da gente. Quando o diferente chega, negamos a vontade de conhecer e repetimos vivências.
Coloca-se um status na cabeça e outro no coração, fazendo um desencontro de verdades e mentiras. Nem sabemos quem somos, mas decora-se o outro com plenitude e voracidade.
Por dentro, nos perdemos na escuridão enquanto lá fora só há holofotes nos cegando de quem realmente somos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"É fácil desistir de nossos sonhos"

Em sua coluna de hoje, na Folha de São Paulo, Contardo Calligaris falou sobre o último filme de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris" (Eu já assisti e recomendo).

Contardo comentou sobre o desejo do protagonista Gil Pender, de abandonar seu trabalho como roteirista para se dedicar a escrever um romance. Atitude vista pela noiva como algo sem sentido.

O fato é que escrever um romance é um tanto ainda mais sério dentro da vida do personagem. É, na verdade, um sonho que ele vem adiando por causa de seu trabalho em Hollywood, e também por causa da frustração que certamente causaria em sua esposa e sogros que vêem tudo como uma bobagem.

E é exatamente sobre esse ponto que Contardo escreveu mais um de seus incríveis textos. Coloco alguns trechos importantes:

“Todo o mundo acaba desprezando o desejo de quem despreza seu próprio desejo”

“O que emperra a vida de Pender não é seu sonho nostálgico, é o presente. A nostalgia, aliás, é seu recurso para não se esquecer completamente de seus próprios sonhos. É como se, para preservar seu desejo, ele o situasse numa outra época. Mas preservá-lo de quem?

“O fato é que somos complacentes com as expectativas dos outros (que amamos ou não) à condição que elas nos convidem a desistir de nosso desejo. É isso mesmo, a frase que precede não saiu errada: adoramos nos conformar (ou nos resignar) às expectativas que mais nos afastam de nossos sonhos. Aparentemente, preferimos ser o romancista potencial que foi impedido de mostrar seu talento a ser o romancista que tentou e revelou ao mundo que não tinha talento. Desistindo de nossos sonhos, evitamos fracassar nos projetos que mais nos importam”.


“Todos nós, em média, dedicamos mais energia à tentativa de silenciar nossos sonhos do que à tentativa de realizá-los”.


Então, finalizo aqui ainda com a dúvida: quando começamos a ser leais com nós mesmos?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Você, de novo?





Parece que foi ontem que te vi. Acho que tenho essa impressão porque o tempo voa, amor. Você tá bem? Jura? Não parece... E essas olheiras? Caramba... Que triste. Ah, foi embora, é? Pra onde? Pra longe? Xi, que chato. Mas fica assim, não. Logo passa. Lembra que você me disse isso? Então, e passa mesmo. Quer café? Acabei de passar.

Por que você veio, heim? Pra me dizer o que preciso fazer, né? Essa sua mania é tão feia. Por que você acha que tenho que fazer aquilo que você pensa ser correto? E mais, você me perguntou se eu estou bem? Se estou satisfeita? Então, gosto assim. De viver assim. Que mania de ficar olhando na janela dos outros...

Vem cá, me diz uma coisa, vai demorar muito, é? Preciso sair. Sabe como é, né? A vida continua. Vai ficar mais um pouco? Mas pra quê? Quer recordar? Sentir o cheiro? Tudo bem, eu deixo. Quando sair, fecha a porta.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Procrastinar



Hoje só quero ler o que os outros escreveram para adiar o que preciso escrever.