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terça-feira, 19 de julho de 2011

“O Passado” é um mergulho nos amores doentes e fantasmagóricos

Alan Pauls, escritor argentino, chegou a pensar em dar o título de “A Mulher Zumbi” para o seu romance “O Passado”. Eu jamais teria lido se ele tivesse insistido nisso.

O livro, lançado no Brasil em 2007, recorre aos amores desesperançados para contar a história de Rímini e Sofía, que decidem se separar após 12 anos de casamento. O amor doentio de Sofía é o fio condutor que mantém o casal ainda ligado depois do rompimento. Rímini tenta continuar dando um sentido para sua existência, mas parece sempre esbarrar nas sombras de um passado feliz e ao mesmo tempo nebuloso ao lado da ex-mulher.

A narrativa de Alan Pauls é de um fôlego surpreendente, mas que em alguns momentos peca pelo excesso. O autor coloca o leitor sempre à frente dos acontecimentos e, aos poucos, vai contando os caminhos até chegar aos fatos. É isso que faz com que você leia e, muitas vezes, sinta raiva por Pauls esconder tanto o jogo. Ótima estratégia!

O protagonista, Rímini, passa por diferentes fases após o término da relação, mudando desde o estilo de vida até a profissão. Chega a se fissurar pela cocaína, masturbação, tradução (que era a sua principal atividade no início da história). Depois, passa a ser intérprete e até professor de tênis. Entre essas trajetórias se envolve com outras mulheres e chega a ter filho com uma delas. E a loucura de Sofía é tamanha que ela sequestra o menino.

Em determinado momento cheguei a pensar que a segunda mulher com que Rímini se envolve, Vera, lhe daria mais problemas do que Sofía. Ela tinha um ciúme perto da banalidade e, se continuasse na narração, certamente seria ela a responsável por transformar a vida do rapaz num inferno. Depois, notei que Sofía libera suas insanidades em doses homeopáticas e diferentes. 

A riqueza de detalhes presente na obra faz com que as cenas sejam criadas na imaginação do leitor como um filme. Talvez essa preocupação de Pauls com o detalhamento ocorra por ele também ser roteirista, o que certamente interfere em sua prosa. O escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, chegou a saudar Alan Pauls “como um dos maiores escritores latino-americanos vivos”.

Em 2003, a obra ganhou o Prêmio Herralde e em 2007 foi adaptada para o cinema por Hector Babenco. Quem faz Rímini é o ator mexicano Gael García Bernal, fato que não me deixou criar meu próprio Rímini durante a leitura, mesmo não tendo assistido ao filme. Acho que isso aconteceu porque o livro veio com esse encarte:


Aliás, a edição belíssima é da Cosac Naify:



Trecho de “O Passado”, pág. 407

“... Rímini pôs-se ao seu lado, mas a manteve enlaçada com um braço, muito consciente, em seu papel de amante profissional, do alívio que lhe proporcionaria ao liberá-la de seu peso, mas também do desamparo que as mulheres sentem depois do sexo, quando a satisfação devolve os corpos à solidão”.

Alan Pauls participou da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na edição de 2007. Chegou a afirmar durante o evento que o amor é uma doença. Em texto publicado no portal G1, ele diz: “Sou uma vítima e não um especialista do amor e não poderia escrever sobre o amor que não fosse patológico”.

A voz do livro é extremamente masculina. Comento isso porque há autores que conseguem transmitir sensações com um ponto de vista feminino, como o Fabrício Carpinejar, por exemplo. No caso de “O Passado”, mesmo se não tivesse o nome do autor impresso na capa, nossa imaginação certamente levaria a crer: “só pode ter sido escrito por um homem”. 

Veja abaixo, um vídeo com o escritor argentino, Alan Pauls.


PS - Tinha decidido não escrever mais aqui no blog sobre livros. Acho que é um pouco preguiça, mesmo. E também, aquela impressão ainda prevalece: ler e guardar para si as sensações é mais divertido e dá menos trabalho. Mas esse, achei que valia muito a pena comentar. 

PS1 – Ainda na linha dos autores latinos, li “O Sonho do Celta”, do Mario Vargas Llosa. Um livraço que cheguei a pensar que não gostaria. Achei bem diferente das coisas que já li dele. Vargas Llosa é realmente incrível!

Publicado no Artefato Cultural

2 comentários:

Malu disse...

Não os prive dos seus ótimos textos sobre suas leituras, amiga!
Não conhecia nem o autor, nem o livro, mas agora entrará na minha listinha.
beijoca.

Cecilia Nery disse...

Esta resenha me deixou com água na boca. E acho que como você eu pensaria no Gael García Bernal. Muito bom1 Bjs.