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domingo, 27 de novembro de 2011

Uma ideia, um post e muitas histórias


Um comentário no blog. Essa foi a luz que fez acender a ideia para um concurso de contos que começou sem muita pretensão e, hoje, transformou-se no livro “Vidas”, coletânea com 20 novos autores.

“Um dia estava relendo meus textos e vi um comentário dizendo que daria outro final a um dos contos. Pensei que outras pessoas poderiam ter algo a dizer. Daí a ideia foi tomando forma e, de repente, estava lá, sem muito planejamento, motivada principalmente pelo desejo de despertar em meus leitores a vontade de botar o mundo particular de cada um em um texto”, explica a blogueira e idealizadora do projeto, Elaine Gaspareto.

Mais tarde, era hora de colocar o plano em prática e, para isso, bastava um único post em seu blog. A princípio, Elaine achou que receberia um número bem pequeno de inscrições e ficou surpresa quando 69 textos chegaram à sua caixa de email.

Ela e mais três jurados se desdobraram na difícil tarefa de escolher apenas 20. “Depois da seleção, criamos um blog especialmente para o concurso e abrimos para votação popular. Os quatro autores mais votados ganharam o direito de ter mais um trabalho dentro da publicação.

Começava então o processo de tornar o livro realidade. Desde a criação da capa até o lançamento. Elaine contou com a colaboração da editora Digitexto. “Nada disso teria sido possível sem o trabalho da equipe”, comenta.

O que mais impressionou Elaine nos textos enviados foi a pluralidade e coragem de gente que nunca havia se aventurado em um concurso. Como a experiência deu certo, ela já planeja outros projetos. “Quem sabe a gente lança uma edição a cada ano. Com regras bem definidas em termos de estilo, tamanho dos textos, formas de seleção, etc”.

Agora, o livro está pronto e pode ser adquirido pelo site da Digitexto.

“Nosso objetivo nunca foi obter lucro, por isso, estamos mantendo o preço mínimo. Então, tudo o que acontecer de agora em diante será mesmo uma vitória e um aprendizado incomparável”.

Elaine ressalta que a coletânea reúne estilos variados e para todos os gostos. “Certamente ao menos em um conto cada leitor vai se encontrar. Vai rir, vai chorar, vai pensar. E, quem sabe, descobrir dentro de si, também um autor adormecido. Afinal essa é a característica única deste livro: ele foi feito por alguém como eu. Como você”, finaliza.

sábado, 26 de novembro de 2011

Desordem


Quando chove aqui dentro fica uma inundação de dúvidas. Aquele que parecia ter partido às vezes aparece sem ser chamado, causando um sabor de coisas não vividas. A gente olha para as fotos e enxerga o que não ficou, o que jamais existiu. E lamenta. Será que um dia terei uma vida parecida com aquelas que todo mundo tem?

Tem gente que se encontra enquanto trabalha, na rua, numa casa abandonada, no meio da lama e gosta porque o exótico encanta. São assim que surgem as paixões. Quando procura, o que vem é desilusão, é saber uma quase certeza de que tem acasos que não vem mesmo. Já pensou se isso é pra você? Então, é assim. Nem todo mundo nasceu pra isso.

As tardes de sábado deixaram de fazer sentido há muito, o café acabou e não tem razão para se fazer mais, o vocabulário esvaziou-se e, não tem palavras, muitos menos frases. Cadê minha caixa de sonhos? Sei que ainda está cheia, perdida no meio da desordem. Alguém veio aqui e bagunçou tudo de propósito para que eu não encontrasse. E eu permiti porque as forças um dia acabam e demoram a recarregar. Fácil mesmo é deitar na rede e esperar o sol se pôr enquanto o gato te encara sem entender seu drama.

Bom é quando a gente esbarra e sem querer aperta um novo botão, ligando tudo novamente, até a esperança.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O que eu tenho pra hoje


Acordei com aquela azia que corrói o coração, mas esta não tem jeito. Não tem remédio que borbulha na água e faz passar. Ela está aqui porque ontem passei o dia comendo você. Ah, não. Por hoje chega. Não quero ter o mesmo dia de ontem. Então, resolvo me perguntar: o que eu tenho pra hoje?
Tenho um cachecol rosa com lilás para enfeitar essa blusa preta sem graça e essa calça jeans surrada. Mas é o que eu tenho pra hoje e parece até que fica legal.

Tenho um pão amanhecido ao quadrado que sobrou de sábado, mas se você passar manteiga e colocar umas gotas de azeite na frigideira fica parecendo croissant.

Tenho uma reunião às 10h30 e já fiz dela o massacre da serra elétrica, mas como é o que eu tenho pra hoje, coloco as melhores músicas para ouvir no caminho até lá e parece que funciona.

Tenho cinco textos para ler e começo com a da Eliane Brum. Decido passar os olhos na do Contardo Calligaris, mas vejo que ele vai discorrer sobre amor e para hoje eu não quero isso.

O que eu tenho para hoje é uma pilha de idéias amontoadas em uma gaveta que fica do lado direito do cérebro. Uma gaveta que permaneceu fechada, porque estava muito ocupada com a sua gaveta. Só por hoje, resolvi fechar a sua.

Tenho uma sensação boa e ao mesmo tempo ruim de que gosto dessa azia que sinto. É como se já tivesse me acostumado com ela e faço todo esse esforço por causa de você. Sinto a minha dor e a sua e ainda te peço mais.

Crio um mundo só meu, cheio de laços em tons laranja como se na vida não existisse o negro. Você já enxerga isso, mas não respeita que eu ainda não. Que bobo, deveria enxergar o mesmo que eu. Começo a perceber que me esqueci da pergunta guia e deixo você invadir meu dia novamente. Então, me pergunto: O que eu tenho para hoje?

Tenho uma hora de treino na academia e juro que hoje vou pular ainda mais forte. Tenho um livro inacabado por sua causa, porque precisei ficar voltando vários capítulos, pois você invadia a história. O personagem ganhou formas, nome, cor e tudo era você.

Tenho uma mesa bem grande, cheia de papéis, livros, revistas e anotações que um dia farão sentido. Assim como a sua, ela nunca está organizada, mas o que eu tenho pra hoje é me diferenciar de você.

Seu quadro colorido na parede não será mais alegre que o meu. Sua timidez não será mais tola do a que a minha, porque hoje quero ser apenas eu. Não venha reparar na cor do meu esmalte, porque pintei de rosa mesmo, e daí?

Hoje eu não tenho nada para te oferecer. Abri um caderno novo e logo na primeira folha comecei uma história bem linda, sem ironias, sem medo, apenas com o pouco que tenho pra hoje. Deve ser suficiente.

***
Texto velhinho, escondidinho na gaveta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Há um livro. Eu o amo

Péter Esterházy começa todos os textos sobre as 97 mulheres de seu livro da mesma forma: “Há uma mulher”. Às vezes a primeira frase vem acompanhada de “Ela me ama” ou “Ela me odeia”. E, assim, ele compõe o seu “Uma mulher” (Cosac Naify), desferindo o amor e ódio de cada relação.

Os relatos, ora expressam uma prosa poética encantadora, ora aquelas verdades que beiram o nojo do pensamento humano. Seja homem ou mulher, todo mundo deve imaginar as coisas belas e sujas de um relacionamento. E Peter faz isso de forma despudorada.

Só quero colocar aqui alguns trechos:

“Há uma mulher. Ela me ama. Só que tenho de esperar pela primeira vez. Quando jantamos, sempre há seis ou sete além de mim. (Há sete homens além de mim, sempre os mesmos sete homens, não falta nem aquele cujo irmão se suicidou...”

“Desde que ela se queixou de que ninguém mais a aperta contra a parede para beijá-la, de que ninguém mais a agarra, ou seja, desde que cobrou a passagem do tempo (a imensidão do tempo que tivemos de compartilhar?), ela passou a questionar o fato de que eu não era capaz de parar o tempo, a grande paixão na verdade funciona assim, detém o tempo, com as estrelas mudas no firmamento, na Terra somente você e eu, você escuta e eu silencio...”

“Há uma mulher. Ela me odeia. Anseia pelo mar, crepúsculo radiante, jorro de luz, nem escuro, nem claro, noite-madrugada eterna. Gira e revira até encontrar o mar. Gosta do vento. Eu o detesto. Eu me escondo atrás dela, ao abrigo do vento”

Lindo, não? Que livro...

Péter Esterházy é húngaro, tem mais de trinta livros publicados, mas aqui no Brasil temos apenas "Uma Mulher e "Os verbos auxiliares do coração", olha o nome! É um daqueles livros que merece ser lido só por causa do título. Os dois são da Cosac, que, em breve, vai publicar "Harmonia Caelestis, considerado a obra-prima do autor. Ele participou da Flip deste ano e foi assistindo ao vídeo da palestra pela internet que me interessei em lê-lo.   

sábado, 12 de novembro de 2011

Evento no Sesc Santos convida para uma reflexão sobre a produção literária de Jorge Amado

A construção da imagem do Brasil na obra de Jorge Amado, enfatizando a importância da idéia de mistura em sua visão de mundo. Essa é a proposta do encontro “O Brasil de Jorge Amado”, que ocorre no dia 17 de novembro, às 20 horas, no Auditório do Sesc. Entrada gratuita.

O debate será ministrado por Ilana Goldstein, bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, mestre em Antropologia Social e autora dos livros “O Brasil best-seller de Jorge Amado: literatura e identidade nacional”

Diversas naturezas de mistura estão presentes em seu universo ficcional: a mistura de religiões, de etnias, do erudito e do popular, do rural e do urbano, do público e do privado, dos cheiros e dos sabores.

Sesc Santos - Rua Conselheiro Ribas, 136

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Os textos de Ivan Martins

Agora virou mania ler toda a quarta-feira a coluna do Ivan Martins, editor-executivo da revista Época. Você já leu? Ele é tão sensível, escreve sobre coisas comuns a todos e com olhar diferenciado. 

A de hoje é: Mulheres mandonas: por que os homens gostam tanto delas?

Leia, vale a pena:

Conheço um cara que morre de medo da namorada. Ele não pega carona com mulher, não almoça sozinho com mulher, não fica de papo com mulher em público. “Vai que alguma amiga da Fulana passa e conta pra ela...” Entre as amigas e amigos, A Fulana virou uma instituição.

Uma vez, ele estava entrando no cinema com ela quando deram de cara com uma ex, que saia da sala. Sabedor da fera que tem em casa, meu conhecido fez um mínimo movimento com a cabeça, esboçou um terço de um sorriso e cumprimentou: “Oi Paula”. Foi o que bastou. Assim que a ex virou as costas, A Fulana saltou sobre ele, possessa: “Oi Paula? Oi Paula? Você pensa que eu sou idiota? Acha que eu não percebi?”...


Ah, a da semana passada tava melhor ainda: Elas amam demais?

Todo mundo conhece mulheres que amam demais - são aquelas que desabam quando os homens vão embora.

Ainda que elas vivam reclamando do sujeito, desmoronam no momento em que ele as deixa: não conseguem trabalhar, não conseguem dormir, não conseguem viver. Os amigos acorrem, a família se alarma, médicos são acionados. Mas nada é capaz de ajudá-las, nem ninguém. O desejo de viver parece ter sido levado pelo cara que foi embora. Tudo o que elas conseguem fazer é pensar nele. Mulheres que amam demais são obcecadas.

Conheci um rapaz que se envolveu num enredo desses.

Depois de um ano de namoro disfuncional – muita briga, um monte de sexo e nenhum plano em que coubessem os dois – o cara resolveu que era hora de terminar. Achou que a moça, que vivia reclamando dele, receberia a notícia sem surpresa, até com alívio. Qual nada. Assim que ele anunciou que não queria mais, ela sucumbiu.

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domingo, 6 de novembro de 2011

Não-aniversário

Adoro comemorar aniversário. Dos outros. No meu dia, fico assim, esquisita como se não houvesse o amanhã. Sei que pareço exagerada, mas é como se a gente se aproximasse mais da morte. Fica um vazio, uma sensação de planos que ficaram para trás. Mas isso é só no dia.

Depois, passa e vejo que tudo é bobagem, eu sei. O excesso de afazeres e planos tornam a vida impossível de não ser querida e festejada. Mas o dia do aniversário definitivamente não combina, para mim, com bolo, salgadinhos e brigadeiros. Parece que sempre sai tudo errado. Fica uma comilança desmedida. Uma alegria meio vazia.

Ainda bem que há o outro dia, onde tudo passa e você pode esquecer que ficou mais velha, ou mais experiente. Pode comemorar os outros 364 dias. Pode renovar os votos, mesmo sem ser Ano Novo. Pode fingir que a idade é apenas um registro. Pode comer bolo, brigadeiro e salgadinho e não ligar para a fartura. O gosto fica até melhor quando o motivo não é o seu aniversário.

Desculpe, mas não gosto do dia do meu aniversário. Acho que nunca gostei e, no fundo, nem eu entendo, apesar de todos os motivos que citei. Já desisti de entender. O que vale é o que fica depois. As alegrias sem motivo, aliás, são as mais saborosas.