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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O que eu tenho pra hoje


Acordei com aquela azia que corrói o coração, mas esta não tem jeito. Não tem remédio que borbulha na água e faz passar. Ela está aqui porque ontem passei o dia comendo você. Ah, não. Por hoje chega. Não quero ter o mesmo dia de ontem. Então, resolvo me perguntar: o que eu tenho pra hoje?
Tenho um cachecol rosa com lilás para enfeitar essa blusa preta sem graça e essa calça jeans surrada. Mas é o que eu tenho pra hoje e parece até que fica legal.

Tenho um pão amanhecido ao quadrado que sobrou de sábado, mas se você passar manteiga e colocar umas gotas de azeite na frigideira fica parecendo croissant.

Tenho uma reunião às 10h30 e já fiz dela o massacre da serra elétrica, mas como é o que eu tenho pra hoje, coloco as melhores músicas para ouvir no caminho até lá e parece que funciona.

Tenho cinco textos para ler e começo com a da Eliane Brum. Decido passar os olhos na do Contardo Calligaris, mas vejo que ele vai discorrer sobre amor e para hoje eu não quero isso.

O que eu tenho para hoje é uma pilha de idéias amontoadas em uma gaveta que fica do lado direito do cérebro. Uma gaveta que permaneceu fechada, porque estava muito ocupada com a sua gaveta. Só por hoje, resolvi fechar a sua.

Tenho uma sensação boa e ao mesmo tempo ruim de que gosto dessa azia que sinto. É como se já tivesse me acostumado com ela e faço todo esse esforço por causa de você. Sinto a minha dor e a sua e ainda te peço mais.

Crio um mundo só meu, cheio de laços em tons laranja como se na vida não existisse o negro. Você já enxerga isso, mas não respeita que eu ainda não. Que bobo, deveria enxergar o mesmo que eu. Começo a perceber que me esqueci da pergunta guia e deixo você invadir meu dia novamente. Então, me pergunto: O que eu tenho para hoje?

Tenho uma hora de treino na academia e juro que hoje vou pular ainda mais forte. Tenho um livro inacabado por sua causa, porque precisei ficar voltando vários capítulos, pois você invadia a história. O personagem ganhou formas, nome, cor e tudo era você.

Tenho uma mesa bem grande, cheia de papéis, livros, revistas e anotações que um dia farão sentido. Assim como a sua, ela nunca está organizada, mas o que eu tenho pra hoje é me diferenciar de você.

Seu quadro colorido na parede não será mais alegre que o meu. Sua timidez não será mais tola do a que a minha, porque hoje quero ser apenas eu. Não venha reparar na cor do meu esmalte, porque pintei de rosa mesmo, e daí?

Hoje eu não tenho nada para te oferecer. Abri um caderno novo e logo na primeira folha comecei uma história bem linda, sem ironias, sem medo, apenas com o pouco que tenho pra hoje. Deve ser suficiente.

***
Texto velhinho, escondidinho na gaveta.

3 comentários:

Jeff Santos disse...

Nossa! Tenho que dar os parabéns, adorei o texto. Revi-me em alguns trechos... Amor, ironia, revolta, esperança. Um começo!!! Não importa se o texto é velho ou novo, se foi um amor com dissabor. A lição é que somos capazes de recomeçar e de reinventar.

Macá disse...

Erika
Que delícia ler textos bons assim. Você diz que esse é velhinho e eu pergunto, tem mais?
Mas posso dizer uma coisa? Deixo-os guardados para o livro. Você não esqueceu disso não é?
beijos e bom final de semana (mesmo sem sol)

Érika Freire disse...

Maca,
Obrigada pela visita. Tem mais sim, alguns perdidos, sem um fim, sem rumo, esperando a boa vontade dessa que vos fala para dar-lhes um desfecho. A ideia do livro está viva aqui dentro, a espera do momento certo. Parabéns pela iniciativa! bjoksss ;)