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segunda-feira, 3 de março de 2014

Ela é um sistema operacional

O que é possível ou não no amor? A distância que separa humanos por uma tela é a mesma que nos aproxima através de sistemas que, quando "dão pau", nos enlouquecem. Perdas são sempre terríveis.

No novo filme de Spike Jonze, "Her", somos levados a um futuro próximo. Seres humanos dividem suas intimidades com máquinas. Sistemas operacionais que ajudam a organizar o dia a dia, leem e respondem a emails com um simples controle de voz, avisam sobre reuniões agendadas.  Conversam, riem, trocam, se apaixonam. E eu me pergunto: esse futuro é mesmo distante? 

Joaquim Phoenix é Theodore que, na mistura entre o antigo e o novo, trabalha escrevendo cartas e joga um videogame hiper-realista. Sozinho na assustadora Los Angeles, ele conhece Samantha, sua mais nova aquisição em formato de celular com inteligência artificial. Não demora e logo ele se encanta pela voz alegre e quase sedutora que está sob a responsabilidade de Scarlett Johansson.


Ainda se recuperando de uma recente separação, Theodore está entregue ao novo. Acomodado na cidade cheia e solitária. Ele destoa do trânsito caótico e do metrô. Ele parece não ter pressa e se deixa levar. Também não parece sentir vergonha e revela com normalidade a alguns amigos o seu envolvimento com Samantha:   

"A mulher com quem tenho saído é um sistema operacional".

E é nesse tom de normalidade que o envolvimento dos dois vai sendo construído ao longo do filme. Theodore caminha com Samantha pelas ruas, eles fazem piquenique, eles se amam. Acontece que Samantha não está só, e Theodore não é o único. Ela atende a outros  8 mil usuários. É a promiscuidade presente na tecnologia. É a banalização do amor mais uma vez. E eu me pergunto: esse futuro é mesmo distante?

Em determinado momento ele se questiona: "Será que estou com ela por que não sou forte o bastante para ter um relacionamento de verdade? Em apoio, a amiga Amy, vivida por Amy Adams, responde: "E esse não é um relacionamento de verdade?"

"Her" vai ao Oscar com cinco indicações, inclusive de melhor filme, e já venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Roteiro. O diretor, Spyke Jonze, tem em seu repertório filmes como “Onde Vivem os Monstros”, "Quero Ser John Malkovich" e "Adaptação ".

Em "Her" o que fica é a reflexão. O jeito como cada um lida com sua felicidade é o que menos importa. 



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Update: Ontem, "Her" ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Mais que merecido.


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