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domingo, 1 de junho de 2014

Sobre dores e adeus

Ainda não sei qual a necessidade das tempestades. Aprender, superar, levantar. Palavras que não gosto e que muitas vezes tenho que usar. Raiva, dor, ressentimento, mágoa. Combinam melhor com minha insignificante literatura. Por que tem escrito tão pouco?, pergunta alguém. Porque não tenho muito mais o que dizer. Como não? Sempre há o que dizer. No momento só iriam sair tristezas, raiva. E isso eu não queria sentir. Então você precisa escrever. Sei que ela está certa, que tem razão no que diz. E eu tento me entregar assim que ela se vai. Sem taças de vinho. A dor é pura e está só. Não precisa de companhia para nascerem os primeiros cortes e o sangue é intenso. Como tanta dor cabe aqui? Lágrimas para limpar, encerrar e se conformar com a falha. Ou com as coisas que não estão em nosso poder. Talvez eu tenha errado com palavras e gestos. Mas erra muito mais quem engana e quem trata mal. Indiferença. Por que tanta indiferença? Nem há preocupação se estou bem e se vou ficar calma com meu coração. Não, não quer saber de nada dessas coisas que fazem machucar. Cada um que cuide de si. Que vire a esquina e não olhe mais para trás simplesmente porque o outro decidiu sair sem dizer um até logo. Você deveria saber, diria algum mago cheio de poderes e sabedorias. Eu consigo imaginá-lo sobre a minha cabeça apontando lições. E quem é que vive bloqueada nessa vida? Parada para não ser atingida, tocada. Coração blindado, seria isso? Dói mais o jeito do outro com a gente do que a impossibilidade da entrega. Total.  E o ódio? É de mim, não se preocupe. Por ter dito coisas e feito poemas para quem não merecia. A palavra é sagrada e as que eu usei se perderam. Foram em vão. Queria guardar bons momentos e frases sobre o tempo que foram usadas no auge da história. Só que a dor apagou tudo, ela me faz questionar se eram verdades aquelas belas frases. Ficção e realidade. Ou mentiras mesmo, descaradas de quem não sente dó do próximo. Não é possível, meu outro eu sugere: é claro que foi verdade. Os sentimentos, eles se entregam. Foram verdadeiros. E então, o que justificaria toda essa indiferença? Quem gosta tem o cuidado do artista que pinta. Toca a tela com delicadeza, escolhe as cores, os tons. Pinta aberrações quando necessário, sem perder a elegância e a destreza que a arte exige. Falta-me sabedoria, caro senhor mago. Eu não sei definir ainda os seres humanos. Nem sentimentos exaustos ou pouco claros. De gente que não se entrega nunca. Ou quando faz, recolhe a rede sem ressentimentos. O que eu sinto ou senti, não interessa mais. Se você vai ficar bem, também não é da minha conta. Isso, não sou eu que penso. Mas você sim. O que eu penso não cabe, por enquanto, por aqui.    


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