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domingo, 5 de outubro de 2014

Somos todos interrompidos

Certa vez, numa conversa, alguém levanta o suposto desejo de se refugiar em qualquer lugar que seja, e dar as costas a esse mundo e sociedade doentes. Acho que o tema surgiu quando falávamos sobre o personagem Hugo, de Lost, que escolhe ir para um hospício mesmo estando bem.

Naquele momento, a vida se tornaria mais fácil para Hugo se ele não precisasse conviver com os outros. Enfrentar problemas existenciais e aceitar que um pouco de loucura é melhor do que as dores que qualquer ser humano “normal” enfrenta.

Não saber qual caminho seguir, sentir que a vida ainda não deu liga, que parece te passar pra trás fazendo você ser obrigado a recomeçar com frequência. Tudo isso gera uma crise quase que infinita.
Hoje, tardiamente, assisti a "Garota, Interrompida", filme de 1999, dirigido por James Mangold e com um elenco de peso: Winona Ryder, Angelina Jolie, Brittany Murphy, Elisabeth Moss e Jared Leto.



Winona Ryder é Susanna Kaysen que, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, é diagnosticada com Transtorno Borderline. O médico a envia para um hospital psiquiátrico e lá, ela passa a conviver com outras garotas com comportamentos mais complicados que o dela.
Mesmo quando um ex-namorado, Jared Leto, a visita e convida para fugir, ela não quer. Diz que não poderia deixar suas amigas.

Como ocorre com a personagem, muitas vezes nossos planos são pequenos aos olhos dos demais. O que você quer, qual é o seu plano? Escrever. Susanna só pretende escrever.

Sem saber nosso diagnóstico, quase que diariamente também nos internamos em um mundo particular, torcendo para que quando sairmos dali tudo esteja resolvido. Entre pequenas doses de ansiolíticos e florais, o desejo para que essas gotas aliviem nosso desespero. Somos interrompidos com uma frequência exaustiva. Pelas dúvidas, pelo medo, pela dor, pela rejeição, pela falta de planos grandiosos. Por ter que recomeçar e essa eterna sensação de que a vida dá uma rasteira quando tudo parece calmo, ou quando se está próximo de alguma vitória. 

Aí a gente vem e se dá alta. Sai do casulo para se interromper outra vez, quem sabe até no dia seguinte, depois de uma tempestade sufocante.    





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