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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sobre esperanças, ventos e merecimentos

Essa porta que está constantemente escancarada conta todos os meus anseios e segredos. Nem sempre foi assim, a realidade é que nunca foi. Só agora quando a gente se vê diante de alguém que vale muito a pena. A gente se despe e começa a contar tudo, a ser transparente sobre os sentimentos. Se cheguei atrasada, seria mesmo uma culpa, uma cruz espinhosa e pesada que devo continuar a carregar? Lamento, ainda não descobri uma resposta. Como em conversas sobre a mesa farta, eu digo diariamente tudo o que sinto vontade. Como geralmente tomo essa iniciativa de contar sinceridades, recebo de volta o “eu também”. E sim, precisa dizer. A gente ainda quer ouvir um afago de palavras. Eu não sei exatamente o que esse tipo de gente tem a esconder, o que teme, ou o que quer de mim. Uma coisa é certa, não quero machucar ninguém. Às vezes, quando paramos no silêncio, eu, pelo menos, tenho ainda muito a dizer. E outras coisas que adoraria ouvir. E você se esconde, e se esconde. Enquanto inúmeras vezes vou dormir sem respostas. Quando chegam as crises de consciência ou sobre o que eu estou fazendo da vida, ou esperando qualquer tipo de milagre... Quando você corre, praticamente foge sem ao menos se despedir, temeroso, eu penso: sou do tipo que também merece essa preocupação e cuidado. Sou mais normal do que possa imaginar e gostaria sim de uma ventania enorme, capaz de tirar certas peças de lugar. Não sei como te mostrar quem sou de fato, talvez até já saiba, apesar de tudo e, cá, mesmo com tanto frio e bagunça, ainda tenho grandes esperanças que você tenha me notado, percebido minha essência. E que se as coisas no passado tivessem sido diferentes, certamente eu estaria reinando no seu trono, ganhando todo o seu zelo e atenção que de fato mereço e, claro, retribuindo tudo em dobro. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nós que não nos amamos mais

Queria que ele fosse embora, ela dizia enquanto a lágrima escorria. Mas ele ficava. Permaneceu nos últimos 20 anos. Estou cansada, estou casada. Ela completava. Só que a televisão continuava ligada. A vida ainda não deu respostas sobre o motivo deles ainda continuarem no mesmo lugar, sem se darem as mãos, apenas um bom dia frio durante as manhãs de domingo.  Quando ocorria uma briga mais séria, não bem uma briga, mas aquelas conversas prolongadas onde problemas e frases se repetem, assim como os sorrisos sem graça. Nessas conversas, várias ao longo dos anos, ele dizia que ia mudar. Ela acreditava e continuavam até o próximo bocejo. Tudo era de dar sono. Tinha vezes que se vestia um pouco melhor, quem sabe ele a notaria. Ela queria que ele a acompanhasse em festas com as amigas, todo mundo ia com os maridos, é claro, e ela não gostava de se sentir sozinha. Só que era assim há tanto tempo. Como ela ainda não reconhecia seu jeito alheio, morno, morto. Como quem se contenta com muito pouco, dizia que pelo menos ele não era de viver no bar. E voltava pra casa logo depois do trabalho. Sinto que não sou mais nada por aqui. Ela dizia quase sempre. Se ele não sair, eu saio. Ela parecia mais determinada desta vez. Os psicanalistas ainda discutem sobre o motivo de casais que permanecem juntos, mesmo distastes há tanto tempo. Mesmo sem conversar, sem afinidades, sem delírios, sem agrados. Como se um torturasse o outro, como se fossem castigos e cruzes pesadas. Nada poderia ser mais duro do que aguentar alguém que não se pode mais. Que não se consegue. As músicas terríveis que ela coloca para tocar deviam incomodá-lo, assim como essa mania ridícula que ele tinha de limpar ferramentas e comprar ferramentas que nunca iria usar. Ela desperdiça comida, ele reclama. Ela não tem senso de solidariedade. Ele nunca a cativa, ela nunca o elogia. Fica como um vidro embaçado, onde estaria wally no meio daquilo tudo. Onde foi parar a tal da reciprocidade? Se nem ao menos conseguem rir um do outro, como vão sustentar suas rugas da velhice? Não há desculpas, não há falta de grana que supere essa falta de respeito por si próprio. Há os que colocam as culpas nos filhos. Bobagem. Sempre é bobagem. Não se deveria nem discutir motivos. Mas sim repensar numa vida, duas vidas infelizes jamais se tornarão únicas. E completas. Ela costura uma calça jeans. Ele chega e coloca a mochila atrás do sofá. Ela suspira de nervoso. Mais um Natal se aproxima. Mais uma vez que não se terminam.  


sábado, 6 de dezembro de 2014

Nesses desencontros
Ficamos enrolados
Há que se desatar esses nós
Mas primeiro é você que precisa se perder por inteiro 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Não há como não se arrebatar. Ele me lê, me curte e me beija.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Cat e a dor que nunca termina

Ela entrou timidamente no palco, quase que de mansinho. Segurava sua guitarra com delicadeza. Um piano à sua disposição e durante uma hora e meia se dividiu entre os dois instrumentos. Cat Power estava atrapalhada. Parava no meio de canções, recomeçava e pedia desculpas. Foram muitos “I’m sorry’s”. 

Bateu a mão sem querer no microfone enquanto tocava o piano. Fez revelações... “tem um bebê aqui comigo”. “Cuide de quem te ama, e não apenas de quem você ama”. E não negou estar totalmente “pra baixo”. A good woman continua triste.

Será que Chan Marshall é uma dor que nunca termina? Seu poder é sua voz, os olhos pretos delineados dão o tom da vida de Cat, e seu coração de artista, que se esconde atrás do microfone. Até seu sorriso é tacanho. A delicadeza vem nas flores brancas jogadas ao público, sua marca.

No show de sexta, ela já havia se aborrecido com um alguém inoportuno que a havia xingado. Após alguns fuck you’s, deixou o palco. Abandonou o show depois de cantar Metal Heart, a música que eu tanto sonhava em ouvir.

Fiquei sem essa e sem outras tantas importantes, e que jamais deveriam ter sido deixadas de lado. Acompanhei apenas o show de sábado após ter trocado de ingresso. Observei que a confusão da cantora afetou o público. Caras de incompreensão, gente que parecia estar ali por bandas como The Lumineers e Metronomy. E quando elas se apresentaram, foi fácil notar a diferença, a energia depositada por cada uma delas. 

Cat fez uma apresentação intimista, quase confessional. Do tipo que não esconde agonias, e nem tem receio de dizer que ainda dói. Deixou o palco com olhos marejados, parecia que era até sua primeira vez cantando, tamanha era sua singeleza, quase uma timidez adolescente.

Porém, tudo tão verdadeiro que te arranca reflexões. Era visível que ela dava o seu melhor, que se esforçava. Sinceridade também em dizer que não é fácil permanecer sóbria, sem cigarros. Afinal, agora uma vida depende da sua.

Quando conversava, quase não se entendia porque ela falava baixo e um pouco longe do microfone.

Eu queria muito mais, mas ver a verdade de uma artista como Chan Marshall, e ouvir de perto aquela voz única e sincera, silencia qualquer lamuriazinha insignificante de fã mimado.