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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Cat e a dor que nunca termina

Ela entrou timidamente no palco, quase que de mansinho. Segurava sua guitarra com delicadeza. Um piano à sua disposição e durante uma hora e meia se dividiu entre os dois instrumentos. Cat Power estava atrapalhada. Parava no meio de canções, recomeçava e pedia desculpas. Foram muitos “I’m sorry’s”. 

Bateu a mão sem querer no microfone enquanto tocava o piano. Fez revelações... “tem um bebê aqui comigo”. “Cuide de quem te ama, e não apenas de quem você ama”. E não negou estar totalmente “pra baixo”. A good woman continua triste.

Será que Chan Marshall é uma dor que nunca termina? Seu poder é sua voz, os olhos pretos delineados dão o tom da vida de Cat, e seu coração de artista, que se esconde atrás do microfone. Até seu sorriso é tacanho. A delicadeza vem nas flores brancas jogadas ao público, sua marca.

No show de sexta, ela já havia se aborrecido com um alguém inoportuno que a havia xingado. Após alguns fuck you’s, deixou o palco. Abandonou o show depois de cantar Metal Heart, a música que eu tanto sonhava em ouvir.

Fiquei sem essa e sem outras tantas importantes, e que jamais deveriam ter sido deixadas de lado. Acompanhei apenas o show de sábado após ter trocado de ingresso. Observei que a confusão da cantora afetou o público. Caras de incompreensão, gente que parecia estar ali por bandas como The Lumineers e Metronomy. E quando elas se apresentaram, foi fácil notar a diferença, a energia depositada por cada uma delas. 

Cat fez uma apresentação intimista, quase confessional. Do tipo que não esconde agonias, e nem tem receio de dizer que ainda dói. Deixou o palco com olhos marejados, parecia que era até sua primeira vez cantando, tamanha era sua singeleza, quase uma timidez adolescente.

Porém, tudo tão verdadeiro que te arranca reflexões. Era visível que ela dava o seu melhor, que se esforçava. Sinceridade também em dizer que não é fácil permanecer sóbria, sem cigarros. Afinal, agora uma vida depende da sua.

Quando conversava, quase não se entendia porque ela falava baixo e um pouco longe do microfone.

Eu queria muito mais, mas ver a verdade de uma artista como Chan Marshall, e ouvir de perto aquela voz única e sincera, silencia qualquer lamuriazinha insignificante de fã mimado.          






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