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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nós que não nos amamos mais

Queria que ele fosse embora, ela dizia enquanto a lágrima escorria. Mas ele ficava. Permaneceu nos últimos 20 anos. Estou cansada, estou casada. Ela completava. Só que a televisão continuava ligada. A vida ainda não deu respostas sobre o motivo deles ainda continuarem no mesmo lugar, sem se darem as mãos, apenas um bom dia frio durante as manhãs de domingo.  Quando ocorria uma briga mais séria, não bem uma briga, mas aquelas conversas prolongadas onde problemas e frases se repetem, assim como os sorrisos sem graça. Nessas conversas, várias ao longo dos anos, ele dizia que ia mudar. Ela acreditava e continuavam até o próximo bocejo. Tudo era de dar sono. Tinha vezes que se vestia um pouco melhor, quem sabe ele a notaria. Ela queria que ele a acompanhasse em festas com as amigas, todo mundo ia com os maridos, é claro, e ela não gostava de se sentir sozinha. Só que era assim há tanto tempo. Como ela ainda não reconhecia seu jeito alheio, morno, morto. Como quem se contenta com muito pouco, dizia que pelo menos ele não era de viver no bar. E voltava pra casa logo depois do trabalho. Sinto que não sou mais nada por aqui. Ela dizia quase sempre. Se ele não sair, eu saio. Ela parecia mais determinada desta vez. Os psicanalistas ainda discutem sobre o motivo de casais que permanecem juntos, mesmo distastes há tanto tempo. Mesmo sem conversar, sem afinidades, sem delírios, sem agrados. Como se um torturasse o outro, como se fossem castigos e cruzes pesadas. Nada poderia ser mais duro do que aguentar alguém que não se pode mais. Que não se consegue. As músicas terríveis que ela coloca para tocar deviam incomodá-lo, assim como essa mania ridícula que ele tinha de limpar ferramentas e comprar ferramentas que nunca iria usar. Ela desperdiça comida, ele reclama. Ela não tem senso de solidariedade. Ele nunca a cativa, ela nunca o elogia. Fica como um vidro embaçado, onde estaria wally no meio daquilo tudo. Onde foi parar a tal da reciprocidade? Se nem ao menos conseguem rir um do outro, como vão sustentar suas rugas da velhice? Não há desculpas, não há falta de grana que supere essa falta de respeito por si próprio. Há os que colocam as culpas nos filhos. Bobagem. Sempre é bobagem. Não se deveria nem discutir motivos. Mas sim repensar numa vida, duas vidas infelizes jamais se tornarão únicas. E completas. Ela costura uma calça jeans. Ele chega e coloca a mochila atrás do sofá. Ela suspira de nervoso. Mais um Natal se aproxima. Mais uma vez que não se terminam.  


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