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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Um convite, vem me ler no Diálogos de Boteco ;)

Agora não tem desculpa, toda quinta eu tenho um compromisso literário: crônica, prosa poética, poesia, conto, divagações... não importa. 
E o melhor: em um site que achei que tem tudo a ver comigo, gente... olha que lindo, clica aqui e confere: Diálogos de Boteco.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016


Eu encontrei um abraço naquela biblioteca
Era como se fosse uma passagem
Um prazo de validade estendido para ficar
Ficar um pouco mais nessa cidade desconhecida
Lá, no caminho de volta, sinto muito, não tem nada
Não tem nem beijos roubados de esquina
Ele já disse, pode ir que eu sigo aqui
Eu permaneço estático
Só que continuo com os olhos grudados em você
Sua companhia de horas de diferença me basta
Você me dá alguma vida nessa estrada de mão única
Voltar é uma necessidade
Te esquecer um desafio 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

"Você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não estiver mais sendo servido." (Nina Simone)
Se está ruim pro William e pra Fátima
O que será de nós reles mortais?
Ninguém se aguenta mais
Ninguém quer saber dessa coisa do pra sempre
Ninguém quer tentativas
Está todo mundo cansado
Só nos resta o autoamor, a autossuficiência, o autocuidado
A gente precisa se bastar

segunda-feira, 29 de agosto de 2016


Não tem holofote que me faça sair dessa quietude
Eu escolhi isso
Quero apenas que me deixem nesse canto
Nesse meu mundo onde eu decido quem fica
Onde escolho as cores do dia
O sabor da comida
Não quero falar
Odeio perguntas sobre ontem
Odeio invasões no meu particular
Não gosto de onde todo mundo está
O excesso de vozes me mata aos poucos
Pareço estranha
Só que cada vez que me afasto mais dessa multidão
Me sinto melhor, mais aliviada
É como se soubesse que ando na direção certa

domingo, 7 de agosto de 2016

Ainda não se dei quantas taças de vinho
Ou copos de cerveja vou precisar para ver tudo meio nublado
Não é questão de fugir
Apenas ajuda a levar o poema pro papel
Assim como ajuda a dizer umas verdades
A você
Como uma espécie de carta aberta
A minha confusão é tamanha
Que eu não sei onde devo colocar cada texto
Tudo é sempre pra você
E eu odeio isso
Porque você não valoriza meus versos
Cada construção
Cada vírgula
Ou a ausência delas


segunda-feira, 1 de agosto de 2016


A minha teimosia é pelo amor
Eu percorro estradas com o fone de ouvido
Olho o entardecer pela janela, onde montanhas e casas são deixadas para trás
Por mais que eu viva intensamente
Pareço sempre retroceder; é como se estivesse presa nesse sentimento tão tolo
Minha vida é descobrir novos ritmos
A cada nova canção eu transbordo
Tem música tão boa que assim como um beijo seu, não deveria acabar nunca
Com toda minha lucidez dizendo sempre o mesmo
De histórias perdidas para sempre
Por mais que eu viva intensamente, o desejo é sempre velho
Caduca
Parece mesmo que é só você que me faz pensar no tradicional
Na maioria das vezes é somente eu e minha mochila
Tantos destinos, eu quero...
Mas seria mais fácil um sábado chuvoso na sala de casa
O conforto ao seu lado parece tão emocionante quanto o próximo check in
Parece mesmo que é por você que eu largaria tudo isso
Só que você não larga nada
Você me faz sentir vontade de voltar para o eixo
Só que já passou da hora do meu caos emocional acabar
Lá no fundo eu sei
A única coisa que me resta,
E por sua culpa
É embarcar no próximo trem


terça-feira, 31 de maio de 2016


Separei alguns poemas depois de tantos anos de blog.
Talvez eu faça um livro de forma independente, talvez um ebook….
Foi interesante me dedicar a uma tarefa que estava adiando ha tanto tempo.
Alguns eu excluí da minha futura coletânea e o mais impressionante foi ver um pouco da minha mudança, o cuidado com o texto, a palavra escolhida. O tema, nao tem jeito, a solidao, o amor… ou a ausencia dele.
Os mais interessantes pra mim sao os atuais, de tres anos para cá. Foi como se notasse um crescimento no sentir e que, claro, influenciou minha escrita.
Sabe o que lamento? Hoje ganho a vida (também) escrevendo, mas isso tem sido tao exaustivo que é como se estivesse me bloqueando. Quando chega o final do dia, tudo que nao quero é escrever… quero sentar com um livro e beber um vinho. Agora sou dessas que tem livro digital ( eu me rendi), mas confesso que estou amando.

Depois de uma semana ensadecida, essa também nao comecou do jeito que gostaria. Por isso eu sigo bebendo vinho, pensando nele, pensando nas poesías que nao vao para o papel… eu ando tao no mundo da lua que precisei colocar esse texto aquí no blog, porque esqueci a senha do novo… E continuo com meu teclado em español. 

sábado, 16 de abril de 2016

Há um homem. Eu o amo e eu o odeio. é teimoso, inteligente, bom papo. Mas é teimoso.

Tem um defeito quase irrecuperável. Triste. Sem solução. Por isso foi necessário seguir. Sem quês. Sem loas. Apesar do mundo de possibilidades aberto por agora, eu ainda penso nele. Há um homem e nós nos bastamos em sonhos. 

sexta-feira, 11 de março de 2016


É preciso fazer silêncio
Respeitar as escolhas alheias
Deixar ir
Mesmo que doa
É preciso repensar decisões
E ir embora sem dar tchau
As nuvens travaram uma guerra
E ondas me jogaram pra trás
Só que eu levantei sem saber o que fazer
Nem sei dizer mais nada
Talvez porque falei milhões de vezes
Porém nunca foi ouvida
Caso tudo permaneça assim, imóvel
Saiba que sempre sentirei sua falta

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016


Se eu tivesse que dizer umas coisas hoje...
Eu ia pedir para você correr
Tenha pressa, muita pressa
Caso seja desejo crescente
Caso seja abraço infinito
Corra
Porque não vai dar tempo de quase nada
E vai sobrar apenas saudades
E raiva
Raiva por não ter feito
Nem ter dito
Nem ter fugido
Esse lamento não será meu
Dessa vez estou imune

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


A chegada naquela sala, aqueles rostos conhecidos, porém distantes
De se pensar na possibilidade de fazer parte das coisas
Pareço invisível algumas vezes
Como se não estive dentro de famílias
Como se não pudesse ser carregada, nem fazer parte daquele todo
Mesmo daquele clichê absurdamente ridículo e teatral
Tem gente que está dentro disso tudo
Não sei o que passa aí dentro
Mas seria completamente digna das coisas
Das visitas que você faz, mesmo sem vontade
Dos almoços que participa, mesmo sem apetite
Das voltas que dá, mesmo sem direção
Enquanto é guiado para dentro do normal
Pareço longe, distante das coisas convencionais
Saberia conquistar a aprovação, saberia lidar com as festas mascaradas
Saberia cuidar de pessoas
Saberia me comportar à mesa
Eu saberia e tenho ideia de todas essas necessidades 
Das coisas de família
Das coisas eternas e regradas
E mereço sim, todas essas honras que ainda não recebi

domingo, 21 de fevereiro de 2016


Porque a gente não deveria aceitar sobras
A gente não deveria aceitar desculpas
Nem frases de desapego
E toda a forma de não envolvimento:
Te cuida, fica bem
A gente não deveria esperar retornos
Nem dar atenção quando na verdade nem pode
A gente deveria dizer mais vezes que está ocupada
E deveria ficar off-line na vida
A gente deveria ir embora... mais vezes



sábado, 20 de fevereiro de 2016

É PRECISO IR EMBORA


Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

“Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”

Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim,  que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo  que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com  “por isso tô te mandando esse áudio”;  ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém.  Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir.  Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.


Fim da sessão.

domingo, 14 de fevereiro de 2016




Já ouvi certa vez que os deuses da literatura costumam acertar. Pode ser através de uma frase formada sem querer, mas quando você termina já nota que ficou tudo bem, nem precisa mais mexer.
Talvez eles funcionem também como uma espécie de guru ou vidente, não sei bem a diferença. Eles podem acertar o futuro, desvendar o pensamento de um personagem ainda não maduro dentro do seu texto. Você começa meio sem jeito, sem saber se esse personagem vai render algo. Ele pode ser um baita picareta, só que você se deixou levar por aquele sorrisinho meigo. Ele parece cavalheiro, mas deu lá as suas sumidas e voltou com o rabo entre as pernas.

E então ele apareceu um pouco mais amadurecido em outras histórias, na qual você deu o título de Verbos Inacabados, que falava de um sujeito que não terminava as frases, era confuso e ainda costumava ir embora sem fazer café. Caramba, esses deuses da literatura me pregaram uma peça...

Depois de alguns anos, essas energias entram em ação e fazem você ver sentido em textos de gaveta, esquecidos... o personagem ganhou vida, virou íntimo e puta merda, ele era aquilo tudo mesmo, daquele jeito que eu escrevi sem ao menos saber o seu nome. Ele é confuso demais, não fala nada com nada, não sabe bem o que quer da vida, mas tem certeza que não importa o que aconteça, não importa se ele se apaixonou, nem se vai sair por caminhos desconhecido... para ele nada vai mudar. Ele é extremamente teimoso, apegado em cobranças sociais e acredita que contribuir com o INSS é de fato uma garantia. Ops.

Parece que ele imagina que a vida vai ser sempre essa mesmo, sem sal. E, eu, como que sem compreender meu próprio personagem, fico com mil questões, engasgadas, porém sem ânimo para jogar para fora.

Como tudo vai ficar igual, se existe uma nova chance? Como tudo vai ficar na mesma quando se nota um sentimento recíproco? Como? Como você não sente esperança de viver outra história? Como e por que você acha que tudo já está resolvido, e que a vida é só isso mesmo. Essas responsabilidades que prendem a gente, mesmo a gente não querendo.

Talvez esses personagens confusos tentam nos enganar. Eles fingem ser durões, fingem que não se importam de terem suas vidas tomadas por uma instituição falida, eles aceitam o que a sociedade determinou há mais de 500 anos, mas tudo bem... sigo a manada que no final tá tudo certo.


Lá no fundo esses personagens querem se rebelar, querem invadir a sua história, e ficam te contando coisas para que você escreva sobre eles. Mesmo se for uma escrita dura, com puxões de orelha. O que fica é essa eterna dúvida, se devemos matar esse personagem confuso que só emperra a minha história, que nunca tem um fim. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Feche os olhos
Contei tudo de uma vez sobre nossas esquisitices de esquina
Me dei conta do sonho, isso é um sonho, eu gritava
E sabia que a partir daquele momento eu podia fazer tudo
Fazer o que quiser, sem medo
Andávamos em câmera lenta dentro de um apartamento clean
Branco, vazio de sentimentos
Espaços vagos como um coração cansado
Desnutrido de fala
Era uma resolução descompensada
Assim como nosso envolvimento bandido, roubado
Não se engane, eu dizia
E saia com os cabelos grudados nos olhos
O vento com cheiro de natureza
Não sabia bem aonde estava indo
Depois de alguns minutos, eu voava ao invés de andar
Rumo aquele caminho adolescente
Conhecido e quase bem vivido
Num passado, logo ali

terça-feira, 5 de janeiro de 2016


Cliente que some
IPVA que chega
Nota fiscal que complica
Gente que não liga
Boca que não beija
Abraço que não se prolonga
Ignorância que só cresce
Proposta sem resposta
Gente fria, calculista
Oportunidade que não abre
Porta que só fecha
Campanha que sai do ar
Tem o Google pra te arrastar
Tem o mercado pra degringolar
Tem dúvida que paira no ar
É a estampa que borra
A camiseta que fica curta, larga, apertada
A poesia que ficou entalada
Uma vontade de dar um tapa bem dado, na cara
Soco no estômago pra ver se acorda
É a balança que não se mexe
A vontade do chocolate que cresce
A mão que nunca ampara
E olha que só é a primeira semana
E já está toda essa bagunça insana

domingo, 3 de janeiro de 2016

Esses desencontros são perdas irreparáveis. Foi um breve tempo não aproveitado, uma gargalhada perdida, um pensamento que ficou vago. A lista negra eu já criei mentalmente e ela está repleta de coisas que gostaria de te dizer. Algumas são bem duras, porque minha sinceridade é o meu grito, é quase um suplício para te sacudir, para despertar em ti qualquer sinal.
Se você está com conexões no coração, deveria agradecer e tentar colecionar momentos. Deveria sair dos blás porque ainda está cheio de vida, incêndios, pulsão.
Detesto os desencontros, porque lembro que permiti mais uma vez. Também penso no quanto falta esforço, as prioridades reais de cada um. As minhas não casam com as suas.
Não vou mais te seduzir com meus versos perdidos.  


sábado, 2 de janeiro de 2016

Sonâmbulos


Gostavam das mesmas coisas. Doces, soneca à tarde, Kafka, Vargas Llosa, gibi e vídeo-game.
Viviam das palavras. Comiam em demasia e se exercitavam de menos. Acordavam cedo.
Tinham insônia. Tinham bronquite, rinite e frescurite.
Seus cabelos eram pretos e lisos, bocas pequenas estaturas medianas e um conservadorismo
irritante.

Ficavam tristes na mesma época: Natal e Carnaval. Alegres no mesmo momento: depois de
terminar uma história. Eram pães-duros. Eram misteriosos. Tinham as mesmas opiniões, ou
quase todas. Ele, ateu. Ela, à toa. Ela acreditava em inspiração, ele em transpiração.

Ele era de libra. Ela, escorpião. Ele, apesar do ceticismo, sabia seu ascendente. Ela, não.
Frequentavam os mesmo lugares. Seus caminhos se cruzaram em uma tarde de um agosto
cinzento. De um dia qualquer, onde ambos buscavam soluções para suas vidas insossas.
Entraram à simpática livraria Entre Nós, localizada no Vilarejo de Porto Pinho.

Ele, 98% racional, não demorou e logo pediu um café. Pegou sua xícara fumegante e levou à
boca. Ela passou a saltitar pelas estantes recheadas de histórias. Passaram-se trinta minutos,
ele acabara de pedir seu segundo café quando ela sentou-se à mesa ao lado.
Silêncio. Ambos mergulhados em seus mundinhos, lendo histórias sem fim, fazendo delas uma
verdade absoluta.

Suas casas eram parecidas. Quadros coloridos decoravam paredes. Viviam em meio à bagunça
de livros, revistas e jornais espalhados pelo chão. O ambiente cheirava a baunilha. Passavam o
dia escrevendo, escrevendo... Bebendo chá. Lendo e relendo.

Aos sábados, caminhavam à beira-mar. Porém, ela ia sentido Pier, ele sentido Centro.
Cruzaram–se por algumas vezes. Ela com fone no ouvido, ele com aparelho de surdez.

Domingo iam ao cinema. Um dia, sentaram-se um ao lado do outro. Mas não se viram. Riram
das mesmas piadas. Choraram no mesmo momento. Saíram pela mesma porta.
Indignavam-se pelas mesmas coisas: salário baixo, cerveja quente, arroz sem sal. Vizinho
chato, gato no cio, sertanejo no último volume e trânsito. Tinham as mesmas dúvidas: crase,
por exemplo.

Tinham os mesmos medos: da morte, da dor, da insignificância. Amavam o silêncio e
respeitavam o próximo. Viviam solitários na multidão.

Agora, a livraria Entre Nós era um refúgio diário. Foi assim por quase quatro meses. Estavam
no mesmo lugar, só que cada um com seu mundo.

Às 16 horas, de uma tarde de quinta-feira, Paulo Zafon adentrou à livraria quando Sarah
Zimerman saía do recinto. Esbarraram-se. Olharam-se por alguns segundos. Era como se
conhecessem. Estavam próximos e separados por uma imensa distância. Ela, 28; ele, 48. Só a
idade os tornava diferentes.

Os caminhos de ambos estavam lado a lado. Sempre se olhavam, mas nunca se enxergavam.

Morreram sozinhos. Ela, primeiro. Ele depois.

Verbos inacabados


Quando chegou, trouxe na bagagem algumas gravatas coloridas e calças de moletom. Não aceitou ajuda para desatar os nós, pediu apenas um aperto de mão como desculpa para puxá-la bem mais perto. A respiração não era mais jovenzinha, mas tinha cheiro de gente que ainda espera muito mais.

Arrancou o anel antes de puxar seus cabelos, tentando deixar claro que o ponto final era certo,
assim como seus sonhos que haviam acordado depois de anos em sono profundo. O desassossego vem para mexer quando tudo parece concreto e foi aí que um se amparou no outro.

Entre eles havia medo de amar e concordaram sobre isso ainda nas primeiras horas do encontro. Fizeram, então, formas de não-amor e insistiram apenas nos ciúmes de querer muito. Ficaria tudo bem mais saboroso com champanhe e pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Ele riu, se assustando com seu pingado de romantismo. Ela também achou graça de sua descrença. Não podia culpá-lo se hoje as aparências são meros fantasmas.

Podia ver seu encantamento pelo olhar desajeitado. Acho que se ele envolveu quando ela derrubou vinho em sua camisa. E, ela, quando ele lhe ofereceu lugar na fila do caixa. Lembra que perguntou sobre as pilhas de livros que estavam sobre a mesa do bar. Ela brincou dizendo que era compulsiva e, como bom homem, interpretou para o lado que lhe fazia bem.

Passaram a dividir quimeras nas noites de sexta e não precisavam conversar sobre o que seria o futuro. Bastavam risadas e um tratamento que perpassa os gêneros. Deixaram de ser ele homem, e ela mulher e, ao redor, alguns amigos faziam parte de um espetáculo simplório e belo.

Gostava de ver o modo como ele segurava o garfo e levava à boca. Depois, ficava bebendo em pé com o copo na mão enquanto a outra ficava no bolso. Para ela era um desperdiçar de masculinidade. Não é de hoje que sofria de encantamento pelo comum aos olhos da maioria.

O som de sua voz crepitava dentro dela e permanecia até antes de dormir, momento em que se lembrava de tudo e interrogava a presença de gente tão interessante nesse mundo. Não é sempre que se encontram várias delas pelas esquinas. A entonação dele ficava ainda mais viva com seu vocabulário engrandecido. Ao fim da noite, ele costumava dizer coisas sem fim, cheias de duplicidade. Menino, pára de jogar os verbos fora, ela dizia meio brava. Ele sorria. Fazia de
propósito.

Quando chegou fazia frio dentro dela, mas logo surgiu uma certeza inspiradora. Ele não tirou as coisas da mala a fazendo pensar muito sobre isso. Percebeu com o tempo que ele não economizava só nos verbos, mas nas ações também. Ainda bem que fazia café enquanto ela escrevia. Isso aconteceu muitas vezes. Não teve tempo de colocar sua rebeldia em frascos.

Nem de fazê-lo ficar. Enquanto permaneceu, sempre questionava o sentir e o motivo de banalizarem tanto os amores. Ela dizia que tudo se resolveria se deixassem essa questão para a posteridade.
Nem um poema foi capaz de suprir sua decepção. Foi embora sem fazer café, sem terminar os 
verbos.