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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Feche os olhos
Contei tudo de uma vez sobre nossas esquisitices de esquina
Me dei conta do sonho, isso é um sonho, eu gritava
E sabia que a partir daquele momento eu podia fazer tudo
Fazer o que quiser, sem medo
Andávamos em câmera lenta dentro de um apartamento clean
Branco, vazio de sentimentos
Espaços vagos como um coração cansado
Desnutrido de fala
Era uma resolução descompensada
Assim como nosso envolvimento bandido, roubado
Não se engane, eu dizia
E saia com os cabelos grudados nos olhos
O vento com cheiro de natureza
Não sabia bem aonde estava indo
Depois de alguns minutos, eu voava ao invés de andar
Rumo aquele caminho adolescente
Conhecido e quase bem vivido
Num passado, logo ali

terça-feira, 5 de janeiro de 2016


Cliente que some
IPVA que chega
Nota fiscal que complica
Gente que não liga
Boca que não beija
Abraço que não se prolonga
Ignorância que só cresce
Proposta sem resposta
Gente fria, calculista
Oportunidade que não abre
Porta que só fecha
Campanha que sai do ar
Tem o Google pra te arrastar
Tem o mercado pra degringolar
Tem dúvida que paira no ar
É a estampa que borra
A camiseta que fica curta, larga, apertada
A poesia que ficou entalada
Uma vontade de dar um tapa bem dado, na cara
Soco no estômago pra ver se acorda
É a balança que não se mexe
A vontade do chocolate que cresce
A mão que nunca ampara
E olha que só é a primeira semana
E já está toda essa bagunça insana

domingo, 3 de janeiro de 2016

Esses desencontros são perdas irreparáveis. Foi um breve tempo não aproveitado, uma gargalhada perdida, um pensamento que ficou vago. A lista negra eu já criei mentalmente e ela está repleta de coisas que gostaria de te dizer. Algumas são bem duras, porque minha sinceridade é o meu grito, é quase um suplício para te sacudir, para despertar em ti qualquer sinal.
Se você está com conexões no coração, deveria agradecer e tentar colecionar momentos. Deveria sair dos blás porque ainda está cheio de vida, incêndios, pulsão.
Detesto os desencontros, porque lembro que permiti mais uma vez. Também penso no quanto falta esforço, as prioridades reais de cada um. As minhas não casam com as suas.
Não vou mais te seduzir com meus versos perdidos.  


sábado, 2 de janeiro de 2016

Sonâmbulos


Gostavam das mesmas coisas. Doces, soneca à tarde, Kafka, Vargas Llosa, gibi e vídeo-game.
Viviam das palavras. Comiam em demasia e se exercitavam de menos. Acordavam cedo.
Tinham insônia. Tinham bronquite, rinite e frescurite.
Seus cabelos eram pretos e lisos, bocas pequenas estaturas medianas e um conservadorismo
irritante.

Ficavam tristes na mesma época: Natal e Carnaval. Alegres no mesmo momento: depois de
terminar uma história. Eram pães-duros. Eram misteriosos. Tinham as mesmas opiniões, ou
quase todas. Ele, ateu. Ela, à toa. Ela acreditava em inspiração, ele em transpiração.

Ele era de libra. Ela, escorpião. Ele, apesar do ceticismo, sabia seu ascendente. Ela, não.
Frequentavam os mesmo lugares. Seus caminhos se cruzaram em uma tarde de um agosto
cinzento. De um dia qualquer, onde ambos buscavam soluções para suas vidas insossas.
Entraram à simpática livraria Entre Nós, localizada no Vilarejo de Porto Pinho.

Ele, 98% racional, não demorou e logo pediu um café. Pegou sua xícara fumegante e levou à
boca. Ela passou a saltitar pelas estantes recheadas de histórias. Passaram-se trinta minutos,
ele acabara de pedir seu segundo café quando ela sentou-se à mesa ao lado.
Silêncio. Ambos mergulhados em seus mundinhos, lendo histórias sem fim, fazendo delas uma
verdade absoluta.

Suas casas eram parecidas. Quadros coloridos decoravam paredes. Viviam em meio à bagunça
de livros, revistas e jornais espalhados pelo chão. O ambiente cheirava a baunilha. Passavam o
dia escrevendo, escrevendo... Bebendo chá. Lendo e relendo.

Aos sábados, caminhavam à beira-mar. Porém, ela ia sentido Pier, ele sentido Centro.
Cruzaram–se por algumas vezes. Ela com fone no ouvido, ele com aparelho de surdez.

Domingo iam ao cinema. Um dia, sentaram-se um ao lado do outro. Mas não se viram. Riram
das mesmas piadas. Choraram no mesmo momento. Saíram pela mesma porta.
Indignavam-se pelas mesmas coisas: salário baixo, cerveja quente, arroz sem sal. Vizinho
chato, gato no cio, sertanejo no último volume e trânsito. Tinham as mesmas dúvidas: crase,
por exemplo.

Tinham os mesmos medos: da morte, da dor, da insignificância. Amavam o silêncio e
respeitavam o próximo. Viviam solitários na multidão.

Agora, a livraria Entre Nós era um refúgio diário. Foi assim por quase quatro meses. Estavam
no mesmo lugar, só que cada um com seu mundo.

Às 16 horas, de uma tarde de quinta-feira, Paulo Zafon adentrou à livraria quando Sarah
Zimerman saía do recinto. Esbarraram-se. Olharam-se por alguns segundos. Era como se
conhecessem. Estavam próximos e separados por uma imensa distância. Ela, 28; ele, 48. Só a
idade os tornava diferentes.

Os caminhos de ambos estavam lado a lado. Sempre se olhavam, mas nunca se enxergavam.

Morreram sozinhos. Ela, primeiro. Ele depois.

Verbos inacabados


Quando chegou, trouxe na bagagem algumas gravatas coloridas e calças de moletom. Não aceitou ajuda para desatar os nós, pediu apenas um aperto de mão como desculpa para puxá-la bem mais perto. A respiração não era mais jovenzinha, mas tinha cheiro de gente que ainda espera muito mais.

Arrancou o anel antes de puxar seus cabelos, tentando deixar claro que o ponto final era certo,
assim como seus sonhos que haviam acordado depois de anos em sono profundo. O desassossego vem para mexer quando tudo parece concreto e foi aí que um se amparou no outro.

Entre eles havia medo de amar e concordaram sobre isso ainda nas primeiras horas do encontro. Fizeram, então, formas de não-amor e insistiram apenas nos ciúmes de querer muito. Ficaria tudo bem mais saboroso com champanhe e pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Ele riu, se assustando com seu pingado de romantismo. Ela também achou graça de sua descrença. Não podia culpá-lo se hoje as aparências são meros fantasmas.

Podia ver seu encantamento pelo olhar desajeitado. Acho que se ele envolveu quando ela derrubou vinho em sua camisa. E, ela, quando ele lhe ofereceu lugar na fila do caixa. Lembra que perguntou sobre as pilhas de livros que estavam sobre a mesa do bar. Ela brincou dizendo que era compulsiva e, como bom homem, interpretou para o lado que lhe fazia bem.

Passaram a dividir quimeras nas noites de sexta e não precisavam conversar sobre o que seria o futuro. Bastavam risadas e um tratamento que perpassa os gêneros. Deixaram de ser ele homem, e ela mulher e, ao redor, alguns amigos faziam parte de um espetáculo simplório e belo.

Gostava de ver o modo como ele segurava o garfo e levava à boca. Depois, ficava bebendo em pé com o copo na mão enquanto a outra ficava no bolso. Para ela era um desperdiçar de masculinidade. Não é de hoje que sofria de encantamento pelo comum aos olhos da maioria.

O som de sua voz crepitava dentro dela e permanecia até antes de dormir, momento em que se lembrava de tudo e interrogava a presença de gente tão interessante nesse mundo. Não é sempre que se encontram várias delas pelas esquinas. A entonação dele ficava ainda mais viva com seu vocabulário engrandecido. Ao fim da noite, ele costumava dizer coisas sem fim, cheias de duplicidade. Menino, pára de jogar os verbos fora, ela dizia meio brava. Ele sorria. Fazia de
propósito.

Quando chegou fazia frio dentro dela, mas logo surgiu uma certeza inspiradora. Ele não tirou as coisas da mala a fazendo pensar muito sobre isso. Percebeu com o tempo que ele não economizava só nos verbos, mas nas ações também. Ainda bem que fazia café enquanto ela escrevia. Isso aconteceu muitas vezes. Não teve tempo de colocar sua rebeldia em frascos.

Nem de fazê-lo ficar. Enquanto permaneceu, sempre questionava o sentir e o motivo de banalizarem tanto os amores. Ela dizia que tudo se resolveria se deixassem essa questão para a posteridade.
Nem um poema foi capaz de suprir sua decepção. Foi embora sem fazer café, sem terminar os 
verbos.