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sábado, 2 de janeiro de 2016

Sonâmbulos


Gostavam das mesmas coisas. Doces, soneca à tarde, Kafka, Vargas Llosa, gibi e vídeo-game.
Viviam das palavras. Comiam em demasia e se exercitavam de menos. Acordavam cedo.
Tinham insônia. Tinham bronquite, rinite e frescurite.
Seus cabelos eram pretos e lisos, bocas pequenas estaturas medianas e um conservadorismo
irritante.

Ficavam tristes na mesma época: Natal e Carnaval. Alegres no mesmo momento: depois de
terminar uma história. Eram pães-duros. Eram misteriosos. Tinham as mesmas opiniões, ou
quase todas. Ele, ateu. Ela, à toa. Ela acreditava em inspiração, ele em transpiração.

Ele era de libra. Ela, escorpião. Ele, apesar do ceticismo, sabia seu ascendente. Ela, não.
Frequentavam os mesmo lugares. Seus caminhos se cruzaram em uma tarde de um agosto
cinzento. De um dia qualquer, onde ambos buscavam soluções para suas vidas insossas.
Entraram à simpática livraria Entre Nós, localizada no Vilarejo de Porto Pinho.

Ele, 98% racional, não demorou e logo pediu um café. Pegou sua xícara fumegante e levou à
boca. Ela passou a saltitar pelas estantes recheadas de histórias. Passaram-se trinta minutos,
ele acabara de pedir seu segundo café quando ela sentou-se à mesa ao lado.
Silêncio. Ambos mergulhados em seus mundinhos, lendo histórias sem fim, fazendo delas uma
verdade absoluta.

Suas casas eram parecidas. Quadros coloridos decoravam paredes. Viviam em meio à bagunça
de livros, revistas e jornais espalhados pelo chão. O ambiente cheirava a baunilha. Passavam o
dia escrevendo, escrevendo... Bebendo chá. Lendo e relendo.

Aos sábados, caminhavam à beira-mar. Porém, ela ia sentido Pier, ele sentido Centro.
Cruzaram–se por algumas vezes. Ela com fone no ouvido, ele com aparelho de surdez.

Domingo iam ao cinema. Um dia, sentaram-se um ao lado do outro. Mas não se viram. Riram
das mesmas piadas. Choraram no mesmo momento. Saíram pela mesma porta.
Indignavam-se pelas mesmas coisas: salário baixo, cerveja quente, arroz sem sal. Vizinho
chato, gato no cio, sertanejo no último volume e trânsito. Tinham as mesmas dúvidas: crase,
por exemplo.

Tinham os mesmos medos: da morte, da dor, da insignificância. Amavam o silêncio e
respeitavam o próximo. Viviam solitários na multidão.

Agora, a livraria Entre Nós era um refúgio diário. Foi assim por quase quatro meses. Estavam
no mesmo lugar, só que cada um com seu mundo.

Às 16 horas, de uma tarde de quinta-feira, Paulo Zafon adentrou à livraria quando Sarah
Zimerman saía do recinto. Esbarraram-se. Olharam-se por alguns segundos. Era como se
conhecessem. Estavam próximos e separados por uma imensa distância. Ela, 28; ele, 48. Só a
idade os tornava diferentes.

Os caminhos de ambos estavam lado a lado. Sempre se olhavam, mas nunca se enxergavam.

Morreram sozinhos. Ela, primeiro. Ele depois.

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