Páginas

sábado, 2 de janeiro de 2016

Verbos inacabados


Quando chegou, trouxe na bagagem algumas gravatas coloridas e calças de moletom. Não aceitou ajuda para desatar os nós, pediu apenas um aperto de mão como desculpa para puxá-la bem mais perto. A respiração não era mais jovenzinha, mas tinha cheiro de gente que ainda espera muito mais.

Arrancou o anel antes de puxar seus cabelos, tentando deixar claro que o ponto final era certo,
assim como seus sonhos que haviam acordado depois de anos em sono profundo. O desassossego vem para mexer quando tudo parece concreto e foi aí que um se amparou no outro.

Entre eles havia medo de amar e concordaram sobre isso ainda nas primeiras horas do encontro. Fizeram, então, formas de não-amor e insistiram apenas nos ciúmes de querer muito. Ficaria tudo bem mais saboroso com champanhe e pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Ele riu, se assustando com seu pingado de romantismo. Ela também achou graça de sua descrença. Não podia culpá-lo se hoje as aparências são meros fantasmas.

Podia ver seu encantamento pelo olhar desajeitado. Acho que se ele envolveu quando ela derrubou vinho em sua camisa. E, ela, quando ele lhe ofereceu lugar na fila do caixa. Lembra que perguntou sobre as pilhas de livros que estavam sobre a mesa do bar. Ela brincou dizendo que era compulsiva e, como bom homem, interpretou para o lado que lhe fazia bem.

Passaram a dividir quimeras nas noites de sexta e não precisavam conversar sobre o que seria o futuro. Bastavam risadas e um tratamento que perpassa os gêneros. Deixaram de ser ele homem, e ela mulher e, ao redor, alguns amigos faziam parte de um espetáculo simplório e belo.

Gostava de ver o modo como ele segurava o garfo e levava à boca. Depois, ficava bebendo em pé com o copo na mão enquanto a outra ficava no bolso. Para ela era um desperdiçar de masculinidade. Não é de hoje que sofria de encantamento pelo comum aos olhos da maioria.

O som de sua voz crepitava dentro dela e permanecia até antes de dormir, momento em que se lembrava de tudo e interrogava a presença de gente tão interessante nesse mundo. Não é sempre que se encontram várias delas pelas esquinas. A entonação dele ficava ainda mais viva com seu vocabulário engrandecido. Ao fim da noite, ele costumava dizer coisas sem fim, cheias de duplicidade. Menino, pára de jogar os verbos fora, ela dizia meio brava. Ele sorria. Fazia de
propósito.

Quando chegou fazia frio dentro dela, mas logo surgiu uma certeza inspiradora. Ele não tirou as coisas da mala a fazendo pensar muito sobre isso. Percebeu com o tempo que ele não economizava só nos verbos, mas nas ações também. Ainda bem que fazia café enquanto ela escrevia. Isso aconteceu muitas vezes. Não teve tempo de colocar sua rebeldia em frascos.

Nem de fazê-lo ficar. Enquanto permaneceu, sempre questionava o sentir e o motivo de banalizarem tanto os amores. Ela dizia que tudo se resolveria se deixassem essa questão para a posteridade.
Nem um poema foi capaz de suprir sua decepção. Foi embora sem fazer café, sem terminar os 
verbos.

Nenhum comentário: