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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016


Se eu tivesse que dizer umas coisas hoje...
Eu ia pedir para você correr
Tenha pressa, muita pressa
Caso seja desejo crescente
Caso seja abraço infinito
Corra
Porque não vai dar tempo de quase nada
E vai sobrar apenas saudades
E raiva
Raiva por não ter feito
Nem ter dito
Nem ter fugido
Esse lamento não será meu
Dessa vez estou imune

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


A chegada naquela sala, aqueles rostos conhecidos, porém distantes
De se pensar na possibilidade de fazer parte das coisas
Pareço invisível algumas vezes
Como se não estive dentro de famílias
Como se não pudesse ser carregada, nem fazer parte daquele todo
Mesmo daquele clichê absurdamente ridículo e teatral
Tem gente que está dentro disso tudo
Não sei o que passa aí dentro
Mas seria completamente digna das coisas
Das visitas que você faz, mesmo sem vontade
Dos almoços que participa, mesmo sem apetite
Das voltas que dá, mesmo sem direção
Enquanto é guiado para dentro do normal
Pareço longe, distante das coisas convencionais
Saberia conquistar a aprovação, saberia lidar com as festas mascaradas
Saberia cuidar de pessoas
Saberia me comportar à mesa
Eu saberia e tenho ideia de todas essas necessidades 
Das coisas de família
Das coisas eternas e regradas
E mereço sim, todas essas honras que ainda não recebi

domingo, 21 de fevereiro de 2016


Porque a gente não deveria aceitar sobras
A gente não deveria aceitar desculpas
Nem frases de desapego
E toda a forma de não envolvimento:
Te cuida, fica bem
A gente não deveria esperar retornos
Nem dar atenção quando na verdade nem pode
A gente deveria dizer mais vezes que está ocupada
E deveria ficar off-line na vida
A gente deveria ir embora... mais vezes



sábado, 20 de fevereiro de 2016

É PRECISO IR EMBORA


Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

“Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”

Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim,  que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo  que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com  “por isso tô te mandando esse áudio”;  ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém.  Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir.  Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.


Fim da sessão.

domingo, 14 de fevereiro de 2016




Já ouvi certa vez que os deuses da literatura costumam acertar. Pode ser através de uma frase formada sem querer, mas quando você termina já nota que ficou tudo bem, nem precisa mais mexer.
Talvez eles funcionem também como uma espécie de guru ou vidente, não sei bem a diferença. Eles podem acertar o futuro, desvendar o pensamento de um personagem ainda não maduro dentro do seu texto. Você começa meio sem jeito, sem saber se esse personagem vai render algo. Ele pode ser um baita picareta, só que você se deixou levar por aquele sorrisinho meigo. Ele parece cavalheiro, mas deu lá as suas sumidas e voltou com o rabo entre as pernas.

E então ele apareceu um pouco mais amadurecido em outras histórias, na qual você deu o título de Verbos Inacabados, que falava de um sujeito que não terminava as frases, era confuso e ainda costumava ir embora sem fazer café. Caramba, esses deuses da literatura me pregaram uma peça...

Depois de alguns anos, essas energias entram em ação e fazem você ver sentido em textos de gaveta, esquecidos... o personagem ganhou vida, virou íntimo e puta merda, ele era aquilo tudo mesmo, daquele jeito que eu escrevi sem ao menos saber o seu nome. Ele é confuso demais, não fala nada com nada, não sabe bem o que quer da vida, mas tem certeza que não importa o que aconteça, não importa se ele se apaixonou, nem se vai sair por caminhos desconhecido... para ele nada vai mudar. Ele é extremamente teimoso, apegado em cobranças sociais e acredita que contribuir com o INSS é de fato uma garantia. Ops.

Parece que ele imagina que a vida vai ser sempre essa mesmo, sem sal. E, eu, como que sem compreender meu próprio personagem, fico com mil questões, engasgadas, porém sem ânimo para jogar para fora.

Como tudo vai ficar igual, se existe uma nova chance? Como tudo vai ficar na mesma quando se nota um sentimento recíproco? Como? Como você não sente esperança de viver outra história? Como e por que você acha que tudo já está resolvido, e que a vida é só isso mesmo. Essas responsabilidades que prendem a gente, mesmo a gente não querendo.

Talvez esses personagens confusos tentam nos enganar. Eles fingem ser durões, fingem que não se importam de terem suas vidas tomadas por uma instituição falida, eles aceitam o que a sociedade determinou há mais de 500 anos, mas tudo bem... sigo a manada que no final tá tudo certo.


Lá no fundo esses personagens querem se rebelar, querem invadir a sua história, e ficam te contando coisas para que você escreva sobre eles. Mesmo se for uma escrita dura, com puxões de orelha. O que fica é essa eterna dúvida, se devemos matar esse personagem confuso que só emperra a minha história, que nunca tem um fim.