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domingo, 14 de fevereiro de 2016




Já ouvi certa vez que os deuses da literatura costumam acertar. Pode ser através de uma frase formada sem querer, mas quando você termina já nota que ficou tudo bem, nem precisa mais mexer.
Talvez eles funcionem também como uma espécie de guru ou vidente, não sei bem a diferença. Eles podem acertar o futuro, desvendar o pensamento de um personagem ainda não maduro dentro do seu texto. Você começa meio sem jeito, sem saber se esse personagem vai render algo. Ele pode ser um baita picareta, só que você se deixou levar por aquele sorrisinho meigo. Ele parece cavalheiro, mas deu lá as suas sumidas e voltou com o rabo entre as pernas.

E então ele apareceu um pouco mais amadurecido em outras histórias, na qual você deu o título de Verbos Inacabados, que falava de um sujeito que não terminava as frases, era confuso e ainda costumava ir embora sem fazer café. Caramba, esses deuses da literatura me pregaram uma peça...

Depois de alguns anos, essas energias entram em ação e fazem você ver sentido em textos de gaveta, esquecidos... o personagem ganhou vida, virou íntimo e puta merda, ele era aquilo tudo mesmo, daquele jeito que eu escrevi sem ao menos saber o seu nome. Ele é confuso demais, não fala nada com nada, não sabe bem o que quer da vida, mas tem certeza que não importa o que aconteça, não importa se ele se apaixonou, nem se vai sair por caminhos desconhecido... para ele nada vai mudar. Ele é extremamente teimoso, apegado em cobranças sociais e acredita que contribuir com o INSS é de fato uma garantia. Ops.

Parece que ele imagina que a vida vai ser sempre essa mesmo, sem sal. E, eu, como que sem compreender meu próprio personagem, fico com mil questões, engasgadas, porém sem ânimo para jogar para fora.

Como tudo vai ficar igual, se existe uma nova chance? Como tudo vai ficar na mesma quando se nota um sentimento recíproco? Como? Como você não sente esperança de viver outra história? Como e por que você acha que tudo já está resolvido, e que a vida é só isso mesmo. Essas responsabilidades que prendem a gente, mesmo a gente não querendo.

Talvez esses personagens confusos tentam nos enganar. Eles fingem ser durões, fingem que não se importam de terem suas vidas tomadas por uma instituição falida, eles aceitam o que a sociedade determinou há mais de 500 anos, mas tudo bem... sigo a manada que no final tá tudo certo.


Lá no fundo esses personagens querem se rebelar, querem invadir a sua história, e ficam te contando coisas para que você escreva sobre eles. Mesmo se for uma escrita dura, com puxões de orelha. O que fica é essa eterna dúvida, se devemos matar esse personagem confuso que só emperra a minha história, que nunca tem um fim. 

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